terça-feira, dezembro 22, 2009

Freud teve um surto no Leblon

O problema deve ter começado com o sedativo tomado antes da viagem ou com a presença de Raymond, que talvez inconformado com a competição inesperada tenha começado a invadir o espaço reservado para Freud ou as duas coisas ao mesmo tempo, vai saber... É fato que nunca foi da natureza de Freud dividir nada, mas aquilo já era um pouco demais... Ele berrava fora de si, deixando a todos perplexos e ainda assim eles se desdobravam e o acudiam, mesmo atordoados. Mas a gritos eram sumariamente despachados e terminavam desistindo.
Sara constrangida, suava em bicas tentando acalmá-lo com palavras amorosas e nada.
Freud estava irredutível e para desespero dela se comportava de maneira irracional.
Infelizmente essa não era a primeira vez. As cenas vinham se tornando lugar comum desde o planejamento da viagem e era um constrangimento. Não estavam em casa e Sara simplesmente não sabia mais ao que apelar para que Freud se comportasse de forma razoável.
Ele desde sempre foi meio recluso e desacostumado com aglomerações e embora sua maior qualidade seja sabidamente o silêncio no qual é capaz de ficar por horas a fio estava, ao que parecia , enlouquecendo, rodeado de tanta gente.
Por Deus como falava esse povo, e todos ao mesmo tempo numa compulsão que lhe embaralhava os pensamentos, e o grito veio como um corte.
Um grito primal, fugido da garganta para acabar com o desassossego causado por tanta mudança que essa viagem tinha provocado.
Sara foi ficando tão ocupada desde a chegada das passagens que já quase não prestava atenção a mais nada...
A comida passou a ser servida às pressas e de qualquer jeito e a casa vivia desde então de pernas para o ar exibindo um número incontável de objetos pessoais, intimidades à mostra para qualquer bisbilhoteiro que chegasse.
E para que tantos pertences espalhados se o tempo longe de casa seria apenas de uma semana? Um stress sem fim!Uma viagem supostamente de lazer que repentinamente se transformava em um inferno, coisa que apenas uma vida a dois é capaz de promover...
Os gritos continuaram.
Imprudentemente Freud incitava o desejo de sua ausência.
Ninguém mais sentia por ele a menor simpatia e para desespero de Sara não pensavam em lhe dedicar nem mais um minuto sequer. Debandavam simplesmente, os covardes.
Freud se mostrava criatura insuportavelmente instável, uma prima dona, e o tumulto criado por ele fez com que Sara terminasse a viagem antes do planejado.
Voltaram para casa.
Ela vinha no avião emburrada e arrependida, pensando que Freud devia ter sido deixado em casa aos cuidados dos porteiros como de todas as outras vezes em que viajara.
Eles trocavam Freud de poleiro, conversavam com ele e o alimentavam.
Pensaram, ela e a prima, que ele devia vir ao Rio para não se sentir tão solitário, era uma viagem mais longa do que o normal e acharam que ele e Raymond, o canário, se dariam bem e alimentariam uma amizade estável. Mas, enganos acontecem...

segunda-feira, dezembro 14, 2009

PRA COMEÇAR 2010

Ciclos em nossas vidas

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final..
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
Foi despedida do trabalho?
Terminou uma relação?
Deixou a casa dos pais?
Partiu para viver em outro país?
A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu.
Pode dizer para si mesma que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó.
Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração..... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor.
Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará.
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu própria, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..

E lembra-te :

“Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”

(Fernando Pessoa)




quinta-feira, dezembro 10, 2009

KIRIBATI OUTRA VEZ

Há mais ou menos dois anos escrevi esse artigo para um jornal do Rio Grande do Sul e ontem Kiribati mais uma vez foi lembrada durante a Conferência do Clima das Nações Unidas.
Não, não foi para anunciar que a vida melhorou para os habitantes de Kiribati, ao contrário.
O mar continua avançando pela ilha adentro e já levou dos jardins da irmandade protestante, onde vive Pelenise Alofa Pilitate,18 dos 20 coqueiros e sua horta simplesmente desapareceu tragada pelas águas.
Pelenise hoje é a manchete de jornais. Como líder comunitária vem promovendo ações de sobrevivência na ilha.

Você conhece Kiribat?

Uma pequena nação insular do Pacifico Sul com 97.000 habitantes, formada por 33 pequenos atóis sucumbe gradativamente ao aquecimento global. Foram diversos os apelos de seu presidente para que as nações desenvolvidas fossem mais responsáveis no uso e abuso de gases poluentes emitidos na atmosfera e como até aqui não obteve sucesso fez um apelo internacional no dia mundial pelo meio ambiente, para evacuar seu país antes que ele desapareça. Mas sinceramente, como é mesmo o nome do país e de seu presidente?...

O que nos faz melhores ou mais importantes? Que valores nos fazem decidir lutar por uma causa e que escolhas fazemos quanto a salvar quais vidas?
Com a visão imediata de progresso em curto prazo não deixaremos nada para uma possível geração futura.
Somos saqueados diariamente não só em nossas riquezas minerais, mas em riquezas muito mais fundamentais; o ar que respiramos, a água que precisamos beber e a solidariedade pela vida seja de quem for. Compramos em suaves prestações o terceiro televisor e é claro, nos trás conforto e emprega mais gente e com isso a indústria floresce, polui e emprega a U$1 por hora pequenas crianças chinesas, tailandesas e se possível fosse, as de Kiribati.
Quantas vezes escutamos a máxima: “todo ser humano tem direito à vida”, mas quais, cara pálida?
Somos um universo interdependente e nos negamos a reconhecer esse fato.
A extinção de Kiribati ou da floresta da Sibéria não afeta apenas essas regiões, mas o direito à vida de todos.
O conforto do mundo moderno trouxe consigo problemas insolúveis que precisam de mais pesquisas para oferecer melhores respostas, mas cada um de nós em seu pequeno universo pode no mínimo se perguntar antes de uma próxima compra: será que eu preciso mesmo?

http://www.kiribatitourism.gov.ki/

quarta-feira, dezembro 09, 2009

TROCAS

Sempre me pego perplexa durante as festividades de fim de ano com a troca de presentes.
Vejo que é mais um reflexo, potencializado, daquilo que somos e como agimos com nossos pares,amigos e conhecidos durante todo o ano.
Essas trocas muitas vezes vêm vazias de conteúdo e não passam de mais uma das cem mil obrigações que vamos acumulando em nossas vidas, para manter, de forma capenga, relacionamentos unilaterais.
O que realmente estamos trocando no fim do ano e durante o ano inteiro?
Se observarmos bem, estamos sempre barganhando ao nosso favor (será mesmo?) apenas, e, que pena...
Queremos sempre o máximo investindo o mínimo possível.
Lucro é o produto final a ser conquistado, mas que lucro pode haver em relações unilaterais? Onde se aprende, onde se cresce, onde se reparte? No desgaste?
Quando lutamos e conquistamos, temos uma sensação de vitória, felicidade e conforto. Porém quando a conquista tem que ser diária, o cansaço nos vence ao que tédio e o desinteresse se seguem.
Vivemos numa sociedade de trocas e talvez ao contrário do que imaginemos uma ‘coisinha qualquer’ não tem outro valor que não o de ‘uma coisinha qualquer’ e ainda que de forma invisível, o desinteresse será computado, e, cobrado mais tarde.
Lembro quando criança de minha avó nos presentear em qualquer ocasião com um par de meias e uma lata de leite moça, ela padronizou a relação com os netos e nunca nos tocou intimamente.
Existem pessoas que têm tanta dificuldade de trocar, que compram presentes como se fossem para si, sem olhar de verdade para o outro, e aí, tanto faz o que tenha custado, a troca simplesmente nem existiu e relações sem troca podem até durar em aparência, porque temos uma incrível resistência a incertezas e às vezes achamos que mais vale um na mão.............
Será?

terça-feira, dezembro 08, 2009

FELIZ 2010!

No fim do ano passado ganhei um pequeno e precioso guia para aplicar na vida diária mudanças essenciais; chama-se O Prazer de Ficar em Casa, a autora é Letícia Braga, minha amiga (autora também do Coração de Mãe). É um livro fininho, mas da ordem dos ‘melhores perfumes vêm nos menores frascos’.
Talvez achemos menor arrumar o canto em que vivemos ou a mesa em que trabalhamos ou até a gaveta em que guardamos os testemunhos de nosso cotidiano.
Talvez na pressa do dia-a-dia tenhamos deixado de lado pequeninos prazeres que nos tragam conforto e bom humor, um sono bem descansado, o repouso dos guerreiros.
Arrumar nossa casa não significa apenas encontrar espaços vazios para colocar ali coisas que muitas vezes nunca usamos nem usaremos.
Arrumar a casa é criar atalhos para acessar aquilo que utilizamos com mais freqüência ao alcance dos olhos e das mãos sem termos que buscar embaixo de uma pilha de coisas já amareladas e amassadas pelo desuso, é implementar um senso de organização estético pessoal no local de nossa intimidade, de nosso repouso, de nosso trabalho. Criar um espaço com nossa marca, identificado conosco; uma organização tão pessoal que reflita nela o nosso rosto, que promova um ‘ah’ surpreso e conforto a quem venha dela partilhar conosco.
Arrumações não precisam ser definitivas e podem deixar respirar o novo; nosso espaço deveria sempre refletir nossas mudanças.
Muitas vezes insistimos em guardar coisas porque achamos que no futuro podem vir a ser de alguma utilidade ou porque simplesmente nos custaram tanto dinheiro que apesar de nunca sequer as termos tocado e talvez ter dado apenas vazão a um impulso descontrolado, vão ficando como testemunha de nossa culpa ou de nosso exagero, como uma punição que não nos deixa ‘esquecer nosso mau comportamento’.
É bom andarmos pela vida menos pesados, zerando a agenda para criar sempre espaços novos, vivendo o presente.
Organizar nosso espaço externo nos dá a oportunidade de fazer ajustes internos, manter ‘a casa’ em ordem, buscar formas mais concretas na direção de nossa felicidade, colocar enfim cada coisa no seu devido lugar para começar 2010. Felicidade a todos!

SER FELIZ

Primeiro vem a idéia que dá vida ao conceito e depois à palavra escrita ou falada, então traduzida em forma ou imagem. Assim se constrói cada etapa do produto final de nossa mente, onde tudo começa, onde tudo é criado: na mente.
Tudo é parte da imaginação e por mais sólido que nos pareça cada sentimento e cada emoção na verdade são produtos da nossa imaginação apenas, e a rigor podem ser alterados ou eliminados a qualquer momento.
Tanto se fala que a felicidade depende de nosso interior... Mas isso só pode ser sabido uma vez experimentado, e uma vez experimentado não será esquecido.
Não significa dizer que o mundo externo não nos possa fazer felizes, faz, muito.
E depois passa e outra vez e depois passa, e outra vez.....
Queremos ser felizes e se não temos controle sobre tudo o que nos traz felicidade é porque desde sempre fomos nós mesmos que nos impusemos limites.
E esse limite é reflexo do medo que sentimos em arriscar qualquer mínima coisa.
Temos medo de perder, de parecermos bobos, de cair no conto do vigário.
E, no entanto, sabemos, embora sem acreditar muito, que não podemos reter nada, deter nada, tudo é constante movimento e se perdemos uma oportunidade...
Tarde demais, já se foi...
Nosso universo se torna muito pequeno quando não nos deixamos apenas observar, mesmo a uma certa distância, mesmo em silêncio, experiências que se apresentam.
Não significa concordar nem se solidarizar, apenas experimentar, olhar talvez sob uma nova perspectiva, um ângulo diferente do nosso, acatar simplesmente ao invés de interferir e completar, por exemplo, o pensamento do outro.
Deixar que a experiência pessoal seja a mãe da conclusão.
Cada um de nós tem um processo único de compreensão e apreensão dos fatos, e é por isso que a médio e longo prazo os manipuladores se tornam prisioneiros dos monstros criados. E lá se foi outra vez a felicidade...
Muitas vezes criamos limites desnecessários apenas para sobreviver a imagens que fazemos de nós mesmos impossíveis de serem mantidas de outra forma e que na verdade, não têm a menor importância...

sexta-feira, dezembro 04, 2009

ENVELHECENDO

Tem gente que usa sofismas tais como 3ª idade, melhor idade, mas sem a marca fantasia o nome é envelhecimento simplesmente. E como diz o João Ubaldo, não encerra necessariamente sabedoria alguma, senão o peso da idade apenas.
E como a múltipla escolha não é exatamente atraente, pode-se tentar aceitar a chegada do tempo graciosamente.
Percebo que alguns idosos vão a bancos e supermercados como tarefa diária e usam deliberadamente a fila comum alegando que a especial é mais longa.
Talvez onde eu more a estatística revele que os cidadãos acima de 65 anos são uma maioria, mas acho que não é bem assim. Talvez o que já não suportem é ouvir as queixas de alguns idosos rabugentos, então vão para as filas comuns e... se queixam. Aleatoriamente, talvez na esperança de encontrarem ouvidos que os escute, quem sabe?
Alguns, estressados, não podem perder nem um minuto de seu tempo e numa ladainha incessante criticam os empecilhos que travam seu caminho, a lerdeza do caixa que se tivessem reparado quem era antes de entrar na fila, teriam evitado, já que o tal funcionário fala com todos, sorri para todos e ainda perde um tempão procurando troco. A ineficácia do sistema, enfim... eles têm pressa, muita pressa, o que faz parecer que são parte de uma população freneticamente ativa.
Mas quando dali saem, o que será que fazem?
Envelhecer é apenas um dos muitos estágios pelo qual nossa vida passa. Precisa talvez de um pouco mais de paciência, menos exigência e quem sabe, mais sabedoria.
O tempo se encarrega de pontuar nossas vidas, não importa quem sejamos.
Alguns minutos usados para o descanso e a reflexão silenciosa ajudam corpo e a mente a se atualizarem num ritmo possível de acompanhar e transformam o humor e a maneira de receber e perceber as coisas com mais tranqüilidade, mais imparcialmente.
Criar um espaço tranqüilo onde o medo não seja o mais constante companheiro e onde se possa desfrutar da própria companhia pode ser muito refrescante e nos ensinar aos poucos a conviver com perdas que são inevitáveis.

segunda-feira, novembro 30, 2009

VÍCIO

Lembro de ter ficado surpresa quando a ex-mulher de Michael Douglas pediu o divórcio alegando que ele era adicto a sexo. Depois de anos de casada e ter tido filhos com ele o que realmente a incomodara a ponto de abrir dessa forma sua privacidade para a imprensa ávida por fofocas?
Traição certamente.
A adição tomara contornos além do permitido e a exposição talvez tenha sido a única forma que encontrou para se defender do ‘puritanismo’ americano sem ser crucificada.
Não é muito fácil aceitar que todos temos comportamentos viciados, a substância que se segue a esse vício é que nos torna socialmente condenáveis ou não.
Criamos um Deus para imolar, porém muito antes de alcançarmos as condições necessárias para reproduzirmos sua imagem e semelhança tornamos Deus tão humano a ponto de criar adesivos e camisetas com dizeres que o tornam apenas um colega, ou então nos tornamos fundamentalistas sob alegação de o estarmos protegendo.
Me pergunto se sem essa defesa Deus conseguiria sobreviver...
O que não nos liberta do vício talvez seja trocar um vício por outro simplesmente.
Em busca da cura, a meio caminho ou desde o começo talvez eu me vicie no que deveria ser meu remédio. Talvez me vicie no terapeuta, ou no médico ou no pastor ou no mestre, esquecendo novamente que o que me levou a uma nova tentativa foi tentar compreender aquilo que me aflige, a necessidade de ser eternamente satisfeito, (eternamente criança?!)
Porque senão vejamos: à medida que crescemos e nos tornamos adultos, a experiência da infância inevitavelmente se desfaz e na tentativa de trazê-la de volta ou evitá-la, não deixamos que o processo natural de amadurecimento aconteça em sendo assim, simplesmente não podemos nos curar.
Num gesto extremo de recriar uma infância que não teve, Michael Jackson inventou para si a terra do Nunca, o universo do Peter Pan, do menino que nunca cresce.
Muitas vezes o que aparentemente nos traz felicidade é o que nos aprisiona e angustia.
Talvez muitos poucos de nós tenham alcançado a felicidade verdadeira e se não se tornaram seres idolatrados, foram desprezados como exemplos de fracasso.
Vagamos como uma horda de crianças perdidas que não aceitam ser contrariadas e ao longo dos anos nos tornamos experts(ou viciados?)em opiniões que muitas vezes nem sequer refletem nossa realidade.
Impensadamente e apenas no intuito de sermos felizes, vamos criando estragos externos e internos por onde passamos e o que é mais triste é que já podemos ter perdido o expresso 2222 por que não enxergamos sua passagem, mas o tempo é impiedoso, passa.

quinta-feira, novembro 26, 2009

quarta-feira, novembro 25, 2009

COLHEMOS O QUE PLANTAMOS?

O filme ia começar.
Foram tantas as tentativas gauches de chegar sem sucesso...
Mas, finalmente cheguei, mesmo com a chuva de canivetes em São Paulo.
Besouro fala de nossa estória de colonizados e da dificuldade e vergonha de assumir a pele. Conta de um herói negro que vive e resiste no imaginário de nossa miscigenação.
Sentada na sala sozinha, pensei que a sessão ia ser só minha e aconteceu de ter um insight antes de outras pessoas chegarem e do filme começar.
Colhemos aquilo que plantamos?
Definitivamente.
Matemática simples.
Simplérrima, aliás.
É como se nos olhássemos num espelho que na maior parte das vezes parece embaçado.
Do outro lado desse espelho está o outro. É como navegar no mundo de Alice de Lewis Carrol. Olhamos para o(s) outro(s) e não nos reconhecemos nele(s), mas estamos lá o tempo todo! Naquele e naquilo que não queremos ver e que criticamos. Estamos lá!
Tão distantes de nosso ideal de vida enquanto não sabemos quem somos e apenas de forma superficial lidamos com aquilo que queremos, sem a menor certeza.
Porque então não é possível enxergar as coisas tal como são? Desprendidas de mim, e daquilo que eu acho?
Talvez porque acredite que meu ponto de vista é muito importante e sempre o correto...Ou porque acho talvez que corro o risco de desaparecer em meio a uma multidão e é por isso que minha opinião deve estar sempre em destaque e ter importância.
Acredito que manter minha opinião é muito mais importante do que conciliar, mais importante que calar às vezes quando minha adolescência tem urgência em falar e apontar a verdade, que convenhamos, não interessa a muita gente. Até porque se alguma verdade contivesse, algum fundamento, provavelmente haveria unanimidade, ou quase, a sua volta.
Não somos unânimes em nada, às vezes capazes de alianças, mas nem sempre...
http://www.youtube.com/watch?v=W2QgxB5xw-k 9 (trailer do filme)

sexta-feira, novembro 20, 2009

DEPRESSÃO

Vinha andando num calor desértico de 36º a sombra e comecei a observar as pessoas nas calçadas. Talvez suas expressões meio desanimadas fossem apenas de calor e cansaço, mas me levaram a pensar em depressão, a doença do século, o detonador de toda a inadequação e desconforto que sentimos hoje, talvez por não entendermos qual é o nosso real valor nesse todo ou porque como uma segunda pele um questionamento nos indaga ainda que timidamente, se realmente há algum valor a enumerar ou se as quantidades de nós mesmos sejam no fim tão banais quanto a quantidade de poeira ou insetos que flanam pelo mundo.
Também não é possível inferir se insetos ou poeira sofrem de tédio ou se necessitam preencher o tempo com as várias pequenas estórias tecidas e colecionadas ao longo dos anos como nós fazemos.
Precisamos do outro ou dos outros pra nos validar o que por si só deveria nos dizer que nossa auto estima É muito baixa. Mas por quê?
O fato é que sempre acho que a fragmentação da família nos piorou individual e coletivamente.
É verdade que os núcleos familiares pré Freud não eram essa cocada toda, mas tinha-se um esquema.

A revolução industrial, internacionalizada no século XIX, fragmentou o núcleo familiar das mais diversas formas possíveis e se antes familiarmente éramos um formato sem forma, quando nos descobrimos indivíduos, isso piorou muito, visivelmente .
Com a revolução industrial a comodidade tal qual na abolição da escravatura deu aos senhores da terra mais dinheiro pelo seu investimento, porém a sociedade urbana herdou uma horda de analfabetos despreparados para outro tipo de trabalho, o que gerou uma frente de pobreza e um comportamento marginal, em toda a amplitude da palavra.
Em muitos casos houve apenas trabalho para mulheres e crianças, nas fábricas, onde trabalhavam, comiam e dormiam sem qualquer conforto mínimo ou o menor dos treinamentos. Pessoas morriam, membros eram mutilados, e por incrível que pareça depois de quase dois séculos passados, discussões trabalhistas acirradas, fundação de sindicatos, greves e leis assinadas, o mesmo ainda acontece com alguns povos orientais que recém abandonaram os campos de trabalho.
A revolução industrial veio dando cambalhotas até os dias de hoje onde não só as mães saíram de casa, mas as avós vão malhar pra ficar saradas (nada contra, by the way) e as crianças com sorte tem alguém que olhe por elas ou simplesmente vivem hipnotizadas por monitores ou telas de TV.
Vivemos numa gincana contra o tempo, num mundo onde os descartáveis não são apenas garrafas pets e os plásticos em geral, onde a educação formal foi trocada por uma linguagem que não cabe em conversa verbal, mas apenas mecânica.
Temos necessidade como quem prescinde de uma droga de alguns minutos de celebridade, para não continuarmos um coisa nenhuma no meio de tanta gente, afinal sendo importante preciso de sua atenção ou corro o risco de de repente virar nada.

terça-feira, novembro 17, 2009

EXPECTATIVA E MEDO

Esperamos e tememos, rezamos e trememos.
Desejamos tão ardentemente que somos tomados por um medo incontrolável de fracasso, então desejamos em silêncio, vivemos em estado platônico, e aquilo que prescinde de nome mora nas sombras e se recolhe, e não acontece, e nos infantiliza, porque escondidos que estamos atrás das muitas portas que criamos e que nos protegem do risco, podemos sempre lançar mão de um SE, e assim imaginar um mundo perfeito onde caibamos, confortavelmente.
Ensaiamos durante uma vida inteira e, de repente, tudo simplesmente se acaba e aquele drama que passamos uma eternidade retocando para o dia de grande estréia no fim não acontece, a cortina desce e o tempo da performance acaba simplesmente, sem qualquer aviso prévio.
Às vezes tenho a sensação de acreditar em reencarnação apenas porque assim me ensinaram ou talvez por achar que isso encerre uma possibilidade de retornar do mundo dos mortos para novamente ter a possibilidade de refazer uma vez mais aquilo que não ficou tão bem feito, e, em sendo assim, poder simplesmente continuar ensaiando para sempre, adiando para sempre, criando um mundo só meu, onde mando eu.
Não tenho absoluta certeza do novamente, tudo o que tenho na verdade é o agora e a estranha sensação de que se não me mexer rápida em sua direção serei engolida por uma enorme e voraz boca negra que vai me cuspir num lugar que não conheço e nem sei como se chama.
Não há mais certezas e receio apenas, que nunca tenha havido.
O sonho acabou faz tempo e o mergulho inevitável precisa ser dado ou corre-se o risco de ficar parado, debruçado no parapeito do tempo.

segunda-feira, novembro 16, 2009

CAOS E ORDEM

Temos uma persistente e estranha vontade de transformar o caos em ordem, como se ordem e caos fossem de per si positivos ou negativos ou como se pudéssemos ter o controle sobre todas as coisas e elas se submetessem a nossa vontade.
Na mitologia grega, Caos era o estado não-organizado, o Nada, uma vacuidade de onde todas as coisas surgiam. Um pré estado de coisas se assim pudéssemos defini-lo.
Chronos, a personificação do tempo, deu origem a Caos que formou um enorme ovo de onde nasceram o Paraíso, a Terra e Eros.
Ou seja: quer queiramos ou não, o caos faz parte de nosso cotidiano de forma natural e incontesti.
Caos e incerteza são eventos inexoráveis e, no entanto, passamos a maior parte de nossas vidas tentando evitá-lo. Seria cômico se não fosse trágico inferir que passamos a vida fugindo da própria vida com medo do que ela possa nos causar.
Nos agarramos a memórias passadas desesperados para que permaneçam ou que retornem ao que já foram um dia, mas memórias simplesmente nos escorrem por entre os dedos, porque nada permanece tal como um dia foi, tudo é impermanente.
O caos é a revolução, a revelação e a loucura, o que antecede ether, o ar que respiram os deuses ou gás que alucina os homens.
O caos é o pai da imaginação, o que estala os dedos entre trevas e proclama Fiat Lux e a claridade se faz.
A sabedoria popular diz que depois da tempestade vem a bonança, mas se não damos espaço para a tempestade...

"O Caos não tem estátua nem figura e não pode ser imaginado; é um espaço que só pode ser conhecido pelas coisas que nele existem e ele contém o universo infinito."(Frances A. Yates)

quinta-feira, novembro 12, 2009

AINDA SOBRE SURDEZ

Barulhos podem ser como despertadores que nos trazem de volta pro agora nos momentos em que distraídos divagamos entre o passado e o futuro e quando percebemos já horas se passaram e temos quase uma obra completa publicada na cabeça, distraídos que vamos nos deixando levar.
Fiquei pensando depois que passei na porta do INES que um deficiente auditivo tem que manter constante um certo estado de alerta, estar bem presente naquilo que faz ou o que faz pode se tornar uma ameaça já que não é advertido por sons, enquanto nós que escutamos podemos nos dar ao luxo de estar completamente alheios a tudo e parecer que estamos ali, corpo e alma presentes, mas com a mente divagando.
O problema de estarmos entretidos com outra coisa que não seja o presente, é que estamos desperdiçando a vida tal como ela é em detrimento de divagações passadas ou planejando ações futuras que podem vir a ser ou não.
Tudo o que temos, o nosso campo de ação, está no presente, e como passa rápido...
No passado ou no futuro não podemos resolver e nem realizar nada, mas somos insistentes, é uma questão de hábito que quanto mais repetido mais se repete.
Como este é para mim um aprendizado recente nem sempre me lembro dele, então às vezes quando o barulho do trânsito ou de uma obra ameaça me irritar lembro que o barulho interrompeu apenas mais uma divagação, mais uma força do hábito, então paro e respiro.
Me concentro no ruido e escuto simplesmente.
Vou trocando de barulho à medida que um se sobrepõe ao outro, vou ouvindo e respirando no ritmo do som, até que som e respiração se tornam um e relaxo.
Respiro simplesmente e retorno ao momento presente.

quarta-feira, novembro 11, 2009

EM TERRA DE SURDOS QUEM TEM OUVIDO É REI

Esses dias andando por Laranjeiras passei em frente ao INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) e me deparei com vários jovens conversando, numa conversa feita através de sinais apenas.
Quando se nasce surdo, naturalmente ‘’fica-se’’mudo, porque reproduzimos apenas aquilo que escutamos.
A audição é um sentido invisível.
Para aqueles de nós que escutam desde sempre, não há a menor noção da importância do ouvir para o crescimento pessoal e o papel crucial que tem a audição em nossas vidas.
Sem a audição a cor da vida é outra e a compreensão dos fatos também.
O som é a energia mecânica da vibração do ar, interpretada como audição.
Ouvir não é apenas escutar; implica numa interpretação ótima de sons levando à produção de pensamento e linguagem.
Dizem que em terra de cego quem tem olho é rei, mas isso vale igual ou mais em terra de surdos.
Todos já brincamos de telefone sem fio quando pequenos e sabemos que quanto maior o número de crianças envolvidas na brincadeira, mais as chances da mensagem original chegar truncada ao ouvido final.
Aparentemente a maioria de nós escuta bastante bem em circunstâncias normais, mas tenho cá minhas dúvidas, uma vez que cada um de nós interpreta uma ‘’mesma’’informação de maneira desigual.
Acho que no fundo temos todos um problema de audição.
Falamos mais do que escutamos e talvez escutemos ao final do jogo apenas a nossa voz, o que sem dúvida prejudica nossa interpretação e consequentemente nossa fala...

terça-feira, novembro 10, 2009

Geisy Arruda

Maria da Penha (também conhecida como Leticia Rabelo) Maia Fernandes virou lei de número 11.340 em 7 de agosto de 2006.
Continuamente agredida, Maria da Penha foi durante seis anos vítima do marido, sofrendo em 1983 uma tentativa de assassinato com arma de fogo que deixou-a paraplégica.
Depois disso ela ainda sofreu outro atentado; dessa vez ele escolheu eletrocução e afogamento na tentativa de assassiná-la.
Esse homem só foi punido depois de 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado.
O que nós vimos em São Paulo foi uma demonstração de vandalismo inominável, de desrespeito absoluto, e, feliz ou infelizmente deixou de bunda de fora a venda de diplomas a varejo que é feita por atacadistas da educação.
Porque o país é mal educado? Porque um diploma a qualquer preço ‘’define’’ a capacidade de um cidadão!
Fechar os olhos para a expulsão de Geisy seria conivir com um comportamento animal contra o qual as mulheres vêm lutando há séculos!
Não vamos esquecer que até bom pouco tempo nós mulheres tínhamos acesso negado a escolha de concepção ou não, que diz respeito diretamente a nós!
A pílula é uma conquista recente, assim como o voto feminino.
Mulheres, não há muito tempo,eram impedidas de atuar no teatro como atrizes.
Ao invés disso, homens travestidos as representavam no palco.
Mulheres escreviam sob pseudônimos masculinos, mulheres não assumiam papéis políticos ou executivos e nem usavam calças compridas, eram mantidas na cozinha...
Sofremos durante séculos toda a sorte de agressão física e moral, e talvez apenas por competitividade mulheres durante séculos foram tratadas como cachorrinhos de estimação a quem homens às vezes se lembravam de atirar uns ossinhos!...
Para a uniban teria sido mais lucrativo punir uma moça de 20 anos que ‘’feriu a ética da universidade’’do que tomar qualquer atitude contra setecentos vândalos que alimentam seu apetite pantagruélico na venda de diplomas de valor discutível...Mas..

domingo, novembro 08, 2009

REALIDADE?

Participei há mais de um mês de palestras de um grande mestre budista; Mingyur Rinpoche, que dentre as muitas coisas sábias que nos falou, apontou para dois dos sofrimentos básicos desta vida: um derivado do nascimento, envelhecimento, doença e morte e o outro, criado por nós, relativo às emoções e ilusões que alimentamos em relação às coisas que acreditamos serem verdadeiras por si mesmas.
Nada é verdadeiro por si mesmo,quer dizer: sem qualquer influência externa, senão vejamos...
Ao olhar para um copo acredito que ele tenha sempre existido como tal, porém isso é uma percepção superficial da realidade.
Um copo existiu primeiro na forma de idéia.
Alguém, talvez por necessidade, tenha imaginado um recipiente para colocar água e beber, depois imaginou a forma que teria e que uma vez imaginada necessitou juntar componentes para sua composição até que forma e conteúdo ideais fossem agregados para criar um objeto físico.
Nesse estágio talvez já tivessem batizado o objeto com o nome copo, de forma que quando esse objeto chegou até nós, formado primeiro por uma idéia, depois por uma forma e a seguir por um nome, achamos que foi copo o tempo todo desde o começo, sem as etapas necessárias desde a idéia primária até a sua composição final, e é dessa mesma forma que julgamos as aparências que chamamos de realidade em nossas vidas.
Acreditamos que a aparência represente uma verdade final em si mesma e não uma série de eventos e condições que sob circunstâncias especificas toma certa forma.
Complicado? Aparentemente sim, mas podemos averiguar esse movimento de forma prática em nosso cotidiano.
Aqui entra o exemplo do segundo sofrimento, aquele sofrimento que criamos por não darmos um espaço, um distanciamento entre a ação e a reação.
À medida que agimos impulsivamente, recorremos de forma repetitiva a um banco de dados emocional que já pode estar ultrapassado há muito tempo sem que tenhamos percebido, e nesse ritmo ficamos defasados, parados no tempo, sem amadurecer o suficiente para compreender o que realmente está se passando à nossa volta.
Para enfrentar novos desafios é preciso dar espaço a novas idéias, o que definitivamente depende de nossa disponibilidade.
Gosto muito de um comercial da TV que diz que o mundo não tem respostas a nos dar, mas perguntas a oferecer.

sábado, novembro 07, 2009

QUESTÃO DE ESCOLHA...

Chegamos muitas vezes à idade adulta tão despreparados e carentes que ficamos em dúvida na hora de tomar uma atitude que nos pareça mais dramática.
Alguns chegam a idade madura cronologicamente bem ambientados, provavelmente tiveram uma infância saudável, pais que os amaram, ambiente propício para crescimento saudável, mas quantos têm essa oportunidade? Basta olharmos para o lado e ver quantas pessoas criticamos por atos que consideramos inadequados diariamente.
Me pergunto se somos capazes de perceber que ainda que aparente o contrário, a inadequação não é uma circunstância que necessariamente agrade a quem nela se encontra, mas é preciso sobreviver.
Conheço mulheres valentes que poderiam virar o mundo de pernas para o ar com apenas uma das mãos, e, no entanto, apanham de seus companheiros. Conheço também mulheres que eram apenas carentes e terminaram por se envolver em relações que depois de algum tempo só lhes trouxe mágoa e abandono e ainda assim não conseguiram se libertar. Conheço ainda as que lutaram sozinhas pela vida de seus filhos e mais tarde, idosas, foram abandonadas por eles...
Escolhas só podem ser feitas baseadas naquilo que somos no momento em que é necessário escolher. Podemos mudar a todo o momento e depende do nosso momento, de como podemos transformar conscientemente aquele que se vê impotente diante da escolha naquele que se esforça por compreender que o que gera sofrimento só é reconhecido como inadequado se há distanciamento para analisar o motivo do envolvimento.
Quando criticamos a ação de uma pessoa devemos ter em mente que não é possível mudarmos a cabeça de ninguém, embora possamos ajudar. Talvez seja também útil pensar que opiniões variam de pessoa a pessoa o que torna a realidade um pouco mais relativa do que costumamos acreditar que seja. Nem todos pensam como nós e é preciso respeitar a opinião alheia. Não é necessário adotarmos nada que não queiramos, mas respeito é fundamental.
Muitas vezes no decorrer da vida nos deram limites demasiados ou nenhum e quando adultos talvez seja preciso nos readaptarmos, respondendo a uma realidade que depende unicamente de nossas escolhas que nem sempre são fáceis.

sexta-feira, novembro 06, 2009

''ONE MUST HAVE CHAOS IN ONE, TO GIVE BIRTH TO A DANCING STAR''...* (Frederich Nietzche)


Muitas vezes cegos a realidade circundante queremos manter o controle e o estado das coisas inalterado, mesmo com a festa acabada e as luzes apagadas, continuamos dançando como se nada tivesse mudado.
Mudanças não são necessariamente fáceis, mas ao longo do tempo podem se mostrar úteis e até mesmo agradáveis e na verdade, são inevitáveis.
A ordem aparente às vezes simplesmente mascara realidades difíceis de encarar e isso não apenas afeta aqueles que estão mais próximos, mas transforma gente em personagem da estória criada em detrimento da realidade.
Personagens são apenas figuras humanas representadas em obras de ficção, prisioneiras de um papel pré-estabelecido numa trama.
E quanto tempo a obra de um amador pode ficar em cartaz?
Talvez o tempo que preceda o caos.
Paredes construídas para defesa obrigam isolamento, e se do alto do muro construído pedras são oferecidas aos passantes, em algum momento na frente desse muro não passará mais ninguém e não haverá mais em quem jogar pedras e nem culpas.
Muitas vezes dedicamos o melhor de nós mesmos a pessoas que são impossíveis de agradar e que com o tempo passam a nos incinerar para alimentar seu narciso glutão.
Aparentemente têm vida própria, mas como trepadeiras que necessitam alcançar altitudes que não suportam, engolem árvores inteiras que passivas se deixam sugar.
É verdade que todos temos defeitos, alguns muito difíceis de suportar e não custa um pouco de tolerância em nome da paz, porém quando essa tolerância é infinita, talvez o beneficio seja nenhum.
Todos nós necessitamos de períodos de isolamento em algum momento de nossas vidas e precisamos abrir espaço para caos dando vida a uma nova ordem.
Quando não nos respeitamos, quando os limites não são claros, estamos vivendo uma personagem que vai inevitavelmente conviver com outras personagens e isso está longe de ser a vida real.





* o caos interno é necessário, para que uma estrela dançante possa nascer- Frederich Nietzche- (tradução livre-)

quinta-feira, novembro 05, 2009

O TREINAMENTO DA MENTE SERVE EXATAMENTE PARA QUÊ?

Digamos que temos um comportamento empedernido de tal forma que nunca sequer passou pela nossa mente questioná-lo, mesmo quando sua repetição nos afasta de nossos objetivos, nos faz mal e incomoda.
Na verdade o mais comum é não reconhecermos um comportamento como vício, mas acharmos que “somos assim” simplesmente.
Costumamos ligar a idéia de vício a uma substância, sem pensar que o vício de comportamento é anterior a qualquer substância a qual possa vir a ligar-se ou não.
Acalmar a mente é um primeiro passo que damos em direção a perceber o que acontece conosco, coisa que não acontece do dia para noite. Exige algum treinamento e repetição. Exige experimentarmos e então aprovarmos, ou não.
Muitas vezes abraçamos idéias como se fossem nossas e nem as questionamos, ávidos que somos por encontrar soluções rápidas e às vezes passamos uma vida inteira sem saber quem realmente somos norteados apenas pelas opiniões alheias, repetindo comportamentos que talvez nos incomodem, mas achando que ‘’as coisas são assim mesmo’’, nos acomodando...
Temos dificuldade de crescer, virar adultos, amadurecer, afinal o tempo passa tão rápido...
Mas, tudo que tem começo tem meio e fim porque tudo se decompõe com o tempo.
Mais do que viver, parece que temos a obrigação de ser felizes e nos dispomos a qualquer coisa para alcançar essa felicidade.
Talvez seja essa a primeira cilada que nos leve ao vício, acreditar que podemos ter o total controle de todas as coisas e voluntariosos alimentamos expectativas que nos angustiam em nome da felicidade.
Repare de vez em quando se os ombros estão elevados, endurecidos, se a mandíbula está trincada. Esses são pontos de tensão no corpo que acabam desordenando a saúde.
Relaxe. Solte os ombros e a boca. Respire.
É possível fazer isso em plena atividade, não é preciso parar nada, apenas se distancie um pouco da tensão externa, se desligue por uns momentos.
Respire simplesmente.
A respiração é um excelente apoio para o relaxamento e está sempre presente, use-a a seu favor.

quarta-feira, novembro 04, 2009

meditação e treinamento da mente

Nos últimos 13 anos tive a oportunidade e privilégio de ser tradutora e aluna de muitos mestres do budismo tibetano.
Desde então foram muitas palestras, retiros de curta e média duração com professores como S.S.Dalai Lama, Chagdud Rinpoche (meu professor principal), Dzongzar Khyentse Rinpoche,Mingyur Rinpoche, Jigme Rinpoche, Chogam Rinpoche, Chagdud Khandro, Lama Tsering, Lama Norbu, Lama Sherab, Ani Zamba, alguns dos quais traduzi em suas estadas no Brasil.
Em cada uma dessas temporadas pude, ao longo do tempo, perceber mudanças consideráveis em minha percepção e comportamento e hoje, depois do diversos treinamentos e técnicas aprendidas com eles acho que minha concentração e memória da atualidade estão em forma, minha saúde e alegria de viver também e acredito que relaxamento e meditação sejam ferramentas úteis para a vida diária, aqui nesse espaço o que ofereço é apenas o fruto de minha experiência como aluna desses professores.
MEDO

Pensamos eu e meu filho em produzir um jornal na internet que tratasse de noticias agradáveis e às gargalhadas chegamos à conclusão de que começaríamos a carreira com a falência batendo à nossa porta.
Especulo se seria correto deduzir que todos gostamos de receber boas noticias e nos sentir seguros e felizes, e à partir dessa conclusão me pergunto: porque um jornal como esse estaria fadado ao insucesso?
Talvez por sermos movidos e alimentados diariamente pelo medo?
Com nosso instinto de sobrevivência ligado no standby durante grande parte do dia, ficamos impedidos de uma interação espontânea com o mundo e possivelmente com a realidade a nossa volta, em última instância nos privamos de uma intimidade maior conosco mesmo e com nossos desconfortos que vão sendo preenchidos com outras estórias que não nos pertencem e não nos deixam amadurecer e desenvolver talentos que poderiam, quem sabe, mudar nossas existências radicalmente.
É verdade que o mundo não anda nenhum mar de rosas, mas é possível que estejamos nos envolvendo muito mais do que o necessário com aquilo que não nos diz respeito, negligenciando o que seria bom desenvolver e assim, aquilo que temos de melhor, permanece adormecido.
Proponho um pequeno relaxamento, alguns segundos apenas, enquanto está de frente para a tela do seu computador ou ao volante ou em qualquer lugar, de forma natural onde ninguém sequer perceba o que está fazendo.
Repita muitas vezes ao dia, garanto que vai fazer bem!

Respire simplesmente, como sempre respira.
Mantenha a coluna ereta e se precisar encoste as costas no respaldo do assento.
Relaxe os ombros e os braços e se quiser feche os olhos.
Relaxe a boca e o queixo.
Sem deixar o corpo totalmente solto, tome consciência da parte superior do corpo, sem esforço, relaxadamente.
Mantenha os pés apoiados relaxadamente no chão e as palmas das mãos viradas para baixo, apoiadas nas coxas.
Tome consciência dos membros inferiores relaxadamente.
Dessa forma corpo e mente se unem conscientes do espaço que ocupam.
Respire simplesmente.
Observe o ar entrando e saindo.
Consciente da mente e do corpo deixe que os pensamentos surjam e desapareçam no ritmo dessa respiração tranqüila e regular, sem nenhum esforço, sem se fixar em qualquer pensamento, deixe apenas que apareçam e sumam, sem criar estórias nem legendas para nenhum deles.
Agora abra os olhos devagar e tome consciência do espaço a sua volta.