O problema deve ter começado com o sedativo tomado antes da viagem ou com a presença de Raymond, que talvez inconformado com a competição inesperada tenha começado a invadir o espaço reservado para Freud ou as duas coisas ao mesmo tempo, vai saber... É fato que nunca foi da natureza de Freud dividir nada, mas aquilo já era um pouco demais... Ele berrava fora de si, deixando a todos perplexos e ainda assim eles se desdobravam e o acudiam, mesmo atordoados. Mas a gritos eram sumariamente despachados e terminavam desistindo.
Sara constrangida, suava em bicas tentando acalmá-lo com palavras amorosas e nada.
Freud estava irredutível e para desespero dela se comportava de maneira irracional.
Infelizmente essa não era a primeira vez. As cenas vinham se tornando lugar comum desde o planejamento da viagem e era um constrangimento. Não estavam em casa e Sara simplesmente não sabia mais ao que apelar para que Freud se comportasse de forma razoável.
Ele desde sempre foi meio recluso e desacostumado com aglomerações e embora sua maior qualidade seja sabidamente o silêncio no qual é capaz de ficar por horas a fio estava, ao que parecia , enlouquecendo, rodeado de tanta gente.
Por Deus como falava esse povo, e todos ao mesmo tempo numa compulsão que lhe embaralhava os pensamentos, e o grito veio como um corte.
Um grito primal, fugido da garganta para acabar com o desassossego causado por tanta mudança que essa viagem tinha provocado.
Sara foi ficando tão ocupada desde a chegada das passagens que já quase não prestava atenção a mais nada...
A comida passou a ser servida às pressas e de qualquer jeito e a casa vivia desde então de pernas para o ar exibindo um número incontável de objetos pessoais, intimidades à mostra para qualquer bisbilhoteiro que chegasse.
E para que tantos pertences espalhados se o tempo longe de casa seria apenas de uma semana? Um stress sem fim!Uma viagem supostamente de lazer que repentinamente se transformava em um inferno, coisa que apenas uma vida a dois é capaz de promover...
Os gritos continuaram.
Imprudentemente Freud incitava o desejo de sua ausência.
Ninguém mais sentia por ele a menor simpatia e para desespero de Sara não pensavam em lhe dedicar nem mais um minuto sequer. Debandavam simplesmente, os covardes.
Freud se mostrava criatura insuportavelmente instável, uma prima dona, e o tumulto criado por ele fez com que Sara terminasse a viagem antes do planejado.
Voltaram para casa.
Ela vinha no avião emburrada e arrependida, pensando que Freud devia ter sido deixado em casa aos cuidados dos porteiros como de todas as outras vezes em que viajara.
Eles trocavam Freud de poleiro, conversavam com ele e o alimentavam.
Pensaram, ela e a prima, que ele devia vir ao Rio para não se sentir tão solitário, era uma viagem mais longa do que o normal e acharam que ele e Raymond, o canário, se dariam bem e alimentariam uma amizade estável. Mas, enganos acontecem...
Um comentário:
Legal! Imagina se fosse um Bull Terrier :-|
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