sábado, fevereiro 13, 2010

fluxo mental

As imagens das enchentes que castigam cidades e bairros são desoladoras.
Olhando todo o lixo levado pela correnteza acumulado nos bueiros que descem por galerias subterrâneas e desemboca em rios que levam essas mesmas águas de volta às casas de cada um de nós, me reportei ao fluxo da mente. Uma enxurrada incontida de pensamentos, emoções descontroladas, imagens, sensações e sentimentos que queremos reter, mas transbordam causando enchentes e desastres que perturbam a ordem, e então é preciso manter distância, afastar tudo isso e encontrar os culpados.
E assim o lixo permanece boiando na superfície, com nossa conivência, impedindo o fluxo natural das águas.
Dificilmente buscamos as causas para nossos comportamentos compulsivos, na verdade quase nunca percebemos nossos hábitos repetitivos, apenas robotizados retornamos às mesmas situações e repetimos os mesmos padrões incessantes, e incrivelmente não nos cansamos da repetição.
É interessante observar como crianças repetem uma brincadeira sem parar e o quanto são capazes de se divertirem com ela por um tempo quase irritante, enquanto nós adultos achamos ‘fofo’ que se divirtam e estimulamos a repetição ‘que gracinha’ que nos dá e à criança, uma sensação de segurança, uma certeza, um certificado para como achamos que as coisas funcionam.
Um age, outro reage e assim fica tudo bem.
Com um pouco mais de atenção, sem fixação, podemos observar o fluxo mental incessante, sem tentar interferir, apenas observando, sem qualquer postura física especial, sem causar interferência, deixando que as coisas em nossa mente surjam e desapareçam, sem imputar valor, vivendo a experiência do momento simplesmente.
É relaxante parar, não fazer, observar. É educativo também.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Penso, logo existo...

‘’Por meio de um complexo raciocínio baseado em premissas e conclusões logicamente necessárias, Descartes concluiu que podia ter certeza de que existia porque pensava’’.(Wikepedia)
Na meditação diferentemente do que se imagina, não existe uma expectativa do não pensar, mas de aprender através de técnicas de relaxamento a observar os pensamentos com algum distanciamento, sem se envolver tão completamente a ponto de perder o fio da meada.
Contemplá-los simplesmente.
Contemplar significa observar e também presentear, premiar, no português.
A contemplação pode nos surpreender com insights profundos de um conhecimento vivencial e experiencial que a teoria ou livros não podem proporcionar.
A meditação não pertence a qualquer religião embora as orientais a tenham adotado como prática desde sempre, talvez porque seus povos dediquem mais concentração àquilo que fazem em seu cotidiano.
Penso, logo existo da forma como penso.
Temos como limite o observador, aquilo que é observado e a forma como é observado e dependendo de nossos limites, e sempre vamos ser limitados, nossa vida e entorno tomam um rumo determinado.
Buscamos alguma coisa o tempo todo sem saber exatamente o quê, então buscamos insaciável e eternamente alguma coisa para preencher o vazio, porque é da nossa natureza querer sempre preencher o que achamos que seja tempo e espaço, e com isso muitas vezes terminamos por fazer coisas que não queremos, ficando enredados num emaranhado de culpas e stress sem fim.
Buscamos o que não conhecemos e por isso aquilo que conquistamos não é duradouro e nem suficiente.
Mais à frente, já aliviados, voltamos a procurar num ciclo ‘cachorro procura rabo que procura cachorro’.
Podemos criar sanidade ou loucura, saúde ou doença, ódio ou amor, tese e antítese, prós e contras, a existência de um, baseada na inexistência do outro.
Mas podemos também simplesmente contemplar, talvez não o tempo todo, mas às vezes, e nesses às vezes encontrar conforto.
Encontrar um lugar de silêncio dentre os barulhos internos e ficarmos por uns momentos apenas como se estivéssemos sentados no cinema, só observando as cenas, sem interpretar nada, olhando a forma, o som, a sensação do jeito como ela passa, fora ‘do mim’, do lado de fora.
Imolamos um criador para nos tornarmos ‘sua imagem e semelhança’, talvez para nos encontrarmos com o criador interior e assim compreender, quem sabe, aquilo que realmente estamos buscando e a melhor forma de encontrar a maneira de ser feliz.