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A terrine
Não ia ser de abacate, mas quando olhei na tela a foto inusitada de um cágado no meio de uma das metades querendo brincar de caroço, todas as certezas me abandonaram e não fazia mais o menor sentido preparar o que tinha sido planejado de véspera; de repente fazer virar outra coisa aquela entrada que tinha me dado tanto trabalho fazia o maior sentido, muito mais do que o prato politicamente correto e saboroso que ficou apenas arranhado por um naco de pão frances e depois foi abandonado sobre a mesa já quase posta para o jantar. Talvez mais tarde depois que a paixão pela tartaruga-abacate tivesse esfriado, quem sabe voltasse a olhar a terrine de chévre com o mesmo olhar apaixonado e quem sabe até um pouco mais motivada levantasse um brinde com o cabernet sauvignon da Casa Real guardado a sete chaves?
Minha mãe ficava inevitavelmente horrorizada a cada manifestação espontânea eu dizia, estabanada ela retrucava, que me levava a furar o planejamento de um cardápio inteiro na última hora, mobilizada por um ingrediente qualquer que me acariciasse os olhos ou o paladar e me invadisse com seus cheiros; eu nunca me fiz de rogada na certeza de que aquela paixão que se avizinhava ia mexer com os humores de todos os comensais e não apenas com o meu.
Não sei se ainda fazem, mas faziam e era uma delicatessen que não se encontrava em qualquer lugar; era caríssima e cheguei a provar e gostei muito, acho até que repeti, mas isso é uma história de muitos anos antes de eu me tornar vegetariana.
A carne da tartaruga, mais precisamente a sopa feita com ela e depois da sopa os brincos, colares, pulseiras e todos os outros etc inventados do casco, polidos e vendidos nas boutiques de Maceió que minha tia muito atenciosamente mandava de presente pra gente e que todas usávamos orgulhosas, enchendo a boca da terra que corria no nosso sangue sem sequer imaginar que a sopa e os badulaques eram um depredar desumano.Lá, naquele tempo nem tão distante, nem de longe nos passava qualquer idéia ecológica que fosse de preservar um nada, era uma abundância que Deus benza e nunca se pensava que ia ser o contrário.
E então meio perplexa olho uma e outra vez a foto da tartaruga recheando o abacate como se embalsamada e estranhamente acho que pertencem uma a outra, tartaruga e abacate assim entrelaçados e misturados como se carne e caroço ou para sempre abacate.
Ah sim, a receita. Tá lá todinha no http://chefcordonvert.blogspot.com