Vinha andando num calor desértico de 36º a sombra e comecei a observar as pessoas nas calçadas. Talvez suas expressões meio desanimadas fossem apenas de calor e cansaço, mas me levaram a pensar em depressão, a doença do século, o detonador de toda a inadequação e desconforto que sentimos hoje, talvez por não entendermos qual é o nosso real valor nesse todo ou porque como uma segunda pele um questionamento nos indaga ainda que timidamente, se realmente há algum valor a enumerar ou se as quantidades de nós mesmos sejam no fim tão banais quanto a quantidade de poeira ou insetos que flanam pelo mundo.
Também não é possível inferir se insetos ou poeira sofrem de tédio ou se necessitam preencher o tempo com as várias pequenas estórias tecidas e colecionadas ao longo dos anos como nós fazemos.
Precisamos do outro ou dos outros pra nos validar o que por si só deveria nos dizer que nossa auto estima É muito baixa. Mas por quê?
O fato é que sempre acho que a fragmentação da família nos piorou individual e coletivamente.
É verdade que os núcleos familiares pré Freud não eram essa cocada toda, mas tinha-se um esquema.
A revolução industrial, internacionalizada no século XIX, fragmentou o núcleo familiar das mais diversas formas possíveis e se antes familiarmente éramos um formato sem forma, quando nos descobrimos indivíduos, isso piorou muito, visivelmente .
Com a revolução industrial a comodidade tal qual na abolição da escravatura deu aos senhores da terra mais dinheiro pelo seu investimento, porém a sociedade urbana herdou uma horda de analfabetos despreparados para outro tipo de trabalho, o que gerou uma frente de pobreza e um comportamento marginal, em toda a amplitude da palavra.
Em muitos casos houve apenas trabalho para mulheres e crianças, nas fábricas, onde trabalhavam, comiam e dormiam sem qualquer conforto mínimo ou o menor dos treinamentos. Pessoas morriam, membros eram mutilados, e por incrível que pareça depois de quase dois séculos passados, discussões trabalhistas acirradas, fundação de sindicatos, greves e leis assinadas, o mesmo ainda acontece com alguns povos orientais que recém abandonaram os campos de trabalho.
A revolução industrial veio dando cambalhotas até os dias de hoje onde não só as mães saíram de casa, mas as avós vão malhar pra ficar saradas (nada contra, by the way) e as crianças com sorte tem alguém que olhe por elas ou simplesmente vivem hipnotizadas por monitores ou telas de TV.
Vivemos numa gincana contra o tempo, num mundo onde os descartáveis não são apenas garrafas pets e os plásticos em geral, onde a educação formal foi trocada por uma linguagem que não cabe em conversa verbal, mas apenas mecânica.
Temos necessidade como quem prescinde de uma droga de alguns minutos de celebridade, para não continuarmos um coisa nenhuma no meio de tanta gente, afinal sendo importante preciso de sua atenção ou corro o risco de de repente virar nada.
Sou tradutora consecutiva e literária e escrevi o romance Quatro Amores e Dois Finais em 2005 e artigos para os sites Estrela Guia, Feminice, Bem Leve e Bolsa de Mulher.
sexta-feira, novembro 20, 2009
terça-feira, novembro 17, 2009
EXPECTATIVA E MEDO
Esperamos e tememos, rezamos e trememos.
Desejamos tão ardentemente que somos tomados por um medo incontrolável de fracasso, então desejamos em silêncio, vivemos em estado platônico, e aquilo que prescinde de nome mora nas sombras e se recolhe, e não acontece, e nos infantiliza, porque escondidos que estamos atrás das muitas portas que criamos e que nos protegem do risco, podemos sempre lançar mão de um SE, e assim imaginar um mundo perfeito onde caibamos, confortavelmente.
Ensaiamos durante uma vida inteira e, de repente, tudo simplesmente se acaba e aquele drama que passamos uma eternidade retocando para o dia de grande estréia no fim não acontece, a cortina desce e o tempo da performance acaba simplesmente, sem qualquer aviso prévio.
Às vezes tenho a sensação de acreditar em reencarnação apenas porque assim me ensinaram ou talvez por achar que isso encerre uma possibilidade de retornar do mundo dos mortos para novamente ter a possibilidade de refazer uma vez mais aquilo que não ficou tão bem feito, e, em sendo assim, poder simplesmente continuar ensaiando para sempre, adiando para sempre, criando um mundo só meu, onde mando eu.
Não tenho absoluta certeza do novamente, tudo o que tenho na verdade é o agora e a estranha sensação de que se não me mexer rápida em sua direção serei engolida por uma enorme e voraz boca negra que vai me cuspir num lugar que não conheço e nem sei como se chama.
Não há mais certezas e receio apenas, que nunca tenha havido.
O sonho acabou faz tempo e o mergulho inevitável precisa ser dado ou corre-se o risco de ficar parado, debruçado no parapeito do tempo.
Desejamos tão ardentemente que somos tomados por um medo incontrolável de fracasso, então desejamos em silêncio, vivemos em estado platônico, e aquilo que prescinde de nome mora nas sombras e se recolhe, e não acontece, e nos infantiliza, porque escondidos que estamos atrás das muitas portas que criamos e que nos protegem do risco, podemos sempre lançar mão de um SE, e assim imaginar um mundo perfeito onde caibamos, confortavelmente.
Ensaiamos durante uma vida inteira e, de repente, tudo simplesmente se acaba e aquele drama que passamos uma eternidade retocando para o dia de grande estréia no fim não acontece, a cortina desce e o tempo da performance acaba simplesmente, sem qualquer aviso prévio.
Às vezes tenho a sensação de acreditar em reencarnação apenas porque assim me ensinaram ou talvez por achar que isso encerre uma possibilidade de retornar do mundo dos mortos para novamente ter a possibilidade de refazer uma vez mais aquilo que não ficou tão bem feito, e, em sendo assim, poder simplesmente continuar ensaiando para sempre, adiando para sempre, criando um mundo só meu, onde mando eu.
Não tenho absoluta certeza do novamente, tudo o que tenho na verdade é o agora e a estranha sensação de que se não me mexer rápida em sua direção serei engolida por uma enorme e voraz boca negra que vai me cuspir num lugar que não conheço e nem sei como se chama.
Não há mais certezas e receio apenas, que nunca tenha havido.
O sonho acabou faz tempo e o mergulho inevitável precisa ser dado ou corre-se o risco de ficar parado, debruçado no parapeito do tempo.
segunda-feira, novembro 16, 2009
CAOS E ORDEM
Temos uma persistente e estranha vontade de transformar o caos em ordem, como se ordem e caos fossem de per si positivos ou negativos ou como se pudéssemos ter o controle sobre todas as coisas e elas se submetessem a nossa vontade.
Na mitologia grega, Caos era o estado não-organizado, o Nada, uma vacuidade de onde todas as coisas surgiam. Um pré estado de coisas se assim pudéssemos defini-lo.
Chronos, a personificação do tempo, deu origem a Caos que formou um enorme ovo de onde nasceram o Paraíso, a Terra e Eros.
Ou seja: quer queiramos ou não, o caos faz parte de nosso cotidiano de forma natural e incontesti.
Caos e incerteza são eventos inexoráveis e, no entanto, passamos a maior parte de nossas vidas tentando evitá-lo. Seria cômico se não fosse trágico inferir que passamos a vida fugindo da própria vida com medo do que ela possa nos causar.
Nos agarramos a memórias passadas desesperados para que permaneçam ou que retornem ao que já foram um dia, mas memórias simplesmente nos escorrem por entre os dedos, porque nada permanece tal como um dia foi, tudo é impermanente.
O caos é a revolução, a revelação e a loucura, o que antecede ether, o ar que respiram os deuses ou gás que alucina os homens.
O caos é o pai da imaginação, o que estala os dedos entre trevas e proclama Fiat Lux e a claridade se faz.
A sabedoria popular diz que depois da tempestade vem a bonança, mas se não damos espaço para a tempestade...
"O Caos não tem estátua nem figura e não pode ser imaginado; é um espaço que só pode ser conhecido pelas coisas que nele existem e ele contém o universo infinito."(Frances A. Yates)
Na mitologia grega, Caos era o estado não-organizado, o Nada, uma vacuidade de onde todas as coisas surgiam. Um pré estado de coisas se assim pudéssemos defini-lo.
Chronos, a personificação do tempo, deu origem a Caos que formou um enorme ovo de onde nasceram o Paraíso, a Terra e Eros.
Ou seja: quer queiramos ou não, o caos faz parte de nosso cotidiano de forma natural e incontesti.
Caos e incerteza são eventos inexoráveis e, no entanto, passamos a maior parte de nossas vidas tentando evitá-lo. Seria cômico se não fosse trágico inferir que passamos a vida fugindo da própria vida com medo do que ela possa nos causar.
Nos agarramos a memórias passadas desesperados para que permaneçam ou que retornem ao que já foram um dia, mas memórias simplesmente nos escorrem por entre os dedos, porque nada permanece tal como um dia foi, tudo é impermanente.
O caos é a revolução, a revelação e a loucura, o que antecede ether, o ar que respiram os deuses ou gás que alucina os homens.
O caos é o pai da imaginação, o que estala os dedos entre trevas e proclama Fiat Lux e a claridade se faz.
A sabedoria popular diz que depois da tempestade vem a bonança, mas se não damos espaço para a tempestade...
"O Caos não tem estátua nem figura e não pode ser imaginado; é um espaço que só pode ser conhecido pelas coisas que nele existem e ele contém o universo infinito."(Frances A. Yates)
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