terça-feira, março 15, 2011

meu maestro soberano foi Antônio Brasileiro

Quando minha mãe estava grávida de 8 meses mais ou menos, a família veio em caravana para o sudeste. Nordestinos, é claro! Minha mãe de primeira geração, filha de gringos fugidos da Rússia entre a 1ª e a 2ª guerra e meu pai pelo que eu saiba, alagoano de muitas gerações, minha prima Sonia, genealogista, pode atestar.
Pois bem, como minha mãe eu era a primeira a sair da calçada de meus ancestrais, eu apenas atravessando algumas ruas e ela vinda de uma distância impressionante; meu avô saiu de Odessa para ir fazer pouso em Garanhuns, pasmem. Mas se o dele foi considerado um ato hercúleo, já o meu sem nenhuma culpa direta era a torto e a direito motivo de deboche toda vez que em casa acontecia uma disputa. Meus irmãos e primos, plenos e orgulhosos de sua ancestralidade e cientes da minha inveja, transbordavam meus dias de lágrimas amargas quando me acusavam de traidora, nascida em terras estrangeiras, e claro, todos mais ou menos pequenos encerrados num mundo de comunicação ainda básica não tínhamos, eu pelo menos, idéia de que das terras de Minas Gerais brotavam tesouros como o Carlos e Milton e Vagner e Joaquim José...E eu me envergonhando de ser mineira..., mas se carioca não era morando no Rio de janeiro, então mineira também não seria e quando eles não estavam por perto eu enchia o peito e soltava um: alagoana!
O duro foi na hora de enfrentar o primeiro documento oficial e ter lá estampado o original de: Minas, que não me deixava mentir. Eu de boba não sabia e nem queria saber que as Minas Gerais foram palco de entreveros políticos, uns com sucesso, outros não, traições, casas grandes e senzalas que enriqueceram as burras de Portugal além de ser enredo de muita escola de samba. Terra de Guimarães, o Rosa, e do José Rubens, o Fonseca, dos cronistas Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubens Braga e da delicada Adélia Prado. Podia passar a manhã inteira me orgulhando de ser mineira, mas mineira vem só escrito lá na carteira, enquanto vou parafraseando Chico Buarque pelas vias da miscelânea que somos nós os brasileiros. Como os irmãos e primos eu desde pequena cultivei orgulho pelo alagoano que foi crescendo literalmente desde o berço quando saídos de Belo Horizonte e fomos acolhidos pelos tios em Copacabana, o sotaque das Alagoas foi música para meus ouvidos desde idade muito pequena, o que me fez de repente assumir plenamente minha face oculta mineira? Uma gente que venho conhecendo aos poucos e que parece que fizeram parte da minha vida inteira! Onde é que fabricam gente como eles? Acho que a areia ferrosa mineira faz gente diferente, com o peito aberto e sem medo de exibir um sorriso quase tatuado no rosto, pru modi de não chatear os outros, são de uma generosidade infinita, depositada à mineira, não é que trabalham em quase silêncio?
Então é isso, nasci em BH, mas o meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano e o meu maestro soberano foi Antônio Brasileiro.