quarta-feira, novembro 17, 2010

Todos os homens são mentirosos

Não é o que o título é super sugestivo e nove entre dez mulheres vai concordar?
Muitas mulheres afirmam, com muita experiência no assunto, que pelo menos 3/3 dos homens que passaram por sua vida eram antes de tudo mentirosos profissionais ou semi.
É verdade que olhando para muitos é possível perceber a impressão digital de uma mãe que mimou mais do que o necessário ou abandonou mais do que o recomendável, enfim, criou um inseguro de carteirinha que se alimenta de suas próprias estorinhas “enganando” muitas vezes mocinhas ou nem tanto que por ingenuidade ou expectativa de um final feliz ainda acreditam que beijando um sapo vão transformá-lo em príncipe.
Cinismos à parte, é impressionante como em pleno século XXI ainda seja possível encontrar fãs dos dois lados desse modelo tão antigo e fora de moda de se relacionar, pero que los hay, los hay...
Mas, por outro lado, talvez as mocinhas inocentes também nem sejam tão ingênuas assim e como formigas incansáveis em seu oficio procurem aquilo que a natureza ou seus pais idealizaram para elas; um bom marido, muitos filhos para coroar sua relação e para fechar o pacote “na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe”, com todo o respeito parece uma condenação sem volta...
Tudo bem que para efetivar a conquista os pavões abram um leque de opções coloridas para encantar uma possível consorte, mas chega uma hora em que o leque precisa baixar, e cá entre nós, só mesmo o James Bond não se descabela com a pequenês do cotidiano. Se por um lado a relação está uma droga, por outro, lá fora, o mar está cheio de peixes para pescar e como o ditado diz: mais vale um pássaro na mão do que dois voando, e como não fala nada de peixes, à pescaria então.
Dito tudo isso, a verdade é que o título da crônica tem pouco a ver com esse assunto, na verdade o título é do livro de Alberto Manguel que faz um lançamento hoje à noite na Travessa do Leblon. A resenha é a que se segue.
O ponto de partida deste romance é a história secreta de Alejandro Bevilacqua, misterioso autor de um único livro, que se matou no exílio em Madri. O escritor desperta a curiosidade de um jornalista francês, que decide escrever um livro sobre ele. As fontes são quatro pessoas que conviveram com Bevilacqua e prometem revelar segredos importantes.
O primeiro narrador tem o nome do próprio romancista: Alberto Manguel, uma espécie de alter ego homônimo. Em seguida, quem fala é Andrea, a última companheira de Bevilacqua; o jornalista recebe também uma carta de Chancho, ex-companheiro de prisão do escritor na Argentina. Por fim, a narrativa fragmentada e aparentemente ébria de outro exilado em Madri, Tito Gorostiza, irá trazer à tona graves segredos e levantar suspeitas acerca da morte de Bevilacqua.
O perfil do escritor, entretanto, permanece incompleto e obscuro. Resta então uma última surpresa: enquanto o jornalista constata a impossibilidade de montar o quebra-cabeça das lembranças alheias, confundido entre equívocos e mentiras, Alberto Manguel demonstra com maestria a possibilidade de um romance dar vida nova ao passado - uma vida verdadeira, apesar de ficcional.
( Companhia das Letras- http://www.companhiadasletras.com.br )

sexta-feira, novembro 12, 2010

De médico, chef e louco, todos temos um pouco...

Acordei com a sensação de que alguém dentro de mim pedia socorro, o pedido era ainda um pouco fraco, mas audível. Esse alguém, pasmem, foi encarcerado pelo super-homem em pessoa! Um doido é claro, travestido de roupa azul com capa esvoaçante e músculos poderosos, embora possa estar vestido de qualquer outra coisa a qualquer hora, trata-se na verdade de um “Maria-vai-com-as- outras”.
Inferi hoje que o ego não passa de uma personalidade alterada do mim, um caso de dupla personalidade espaçosa, um preview das gêmeas Ruth e Raquel da novela Mulheres de areia, que como todo doido tem que ser tratado com cautela, sem contrariar, todo cuidado é pouco.
Então pela primeira vez compreendi perfeitamente bem para o que serve a meditação, compreendi o que significa o termo “mente fabricada”.
É possível brincar de bom ou mau moço para efeito externo por um tempo incrível, às vezes por uma vida inteira, mas cá entre nós quem é que realmente está interessado nisso a não ser o super-homem? E enquanto damos asas a ele, mais ele vai nos alimentando com criptonita e quanto mais alto ele voa mais a nossa capa fica furada e o nosso vôo limitado.
Na meditação a gente primeiro acalma a avalanche de pensamentos e vai deixando o batimento cardíaco diminuir, até ficar quase com frio. Tira o foco de tudo que não está ali naquele momento, observa quieto, como quem vê um filme de suspense onde cada cena é crucial para o entendimento do enredo total. Olha com certo distanciamento pra compreender como funciona, o envolvimento atrapalha. Se envolveu? Volte uma casa no tabuleiro para observar o enredo com distanciamento, preste atenção em como respira.
Se esqueceu da respiração? Cuidado pra não ficar sem ar.
Teoricamente deveríamos ser os nossos melhores terapeutas uma vez que não há quem nos conheça melhor do que nós mesmos, mas o que nos impede? O envolvimento, a falta de distanciamento, a danada da criptonita, a paixão como síntese de aversão e apego.
Não conseguimos observar nada sem envolvimento apaixonado, não conseguimos deixar os modelos pré-consagrados em detrimento de uma visão menos apaixonada e habituada a padrões do isso é assim e aquilo é assado, porque eu já vi esse filme antes e sei como vai terminar, sabe nada. Na verdade podemos repetir a fita um sem número de vezes, mas nossos olhos já não serão os mesmos na segunda ou na centésima audição, apenas nos sentimos mais seguros quando achamos que se trata de uma repetição, uma coisa já conhecida e que, portanto, tem um padrão a ser seguido para dar certo ou errado e se por acaso a resposta não se repete é fácil culpar alguém ou a sorte, e como de chef todos temos um pouco vou agora pro outro blog .
http://chefcordonvert.blogspot.com

quinta-feira, novembro 11, 2010

E se?

Estou lendo um livro e uma certa ansiedade me assalta já de cara apesar de observar que todas as hipóteses nele levantadas até aqui levam a crer que os cientistas que o escreveram caminharam na direção certa e que no final respostas ou perguntas estarão nas folhas que se seguem para juntado um quebra cabeças ter dúvidas satisfatoriamente sanadas, mas por quanto tempo?
Como está muito bem colocado no livro desde o começo, um objeto oculto de conhecimento autoriza “conhecedores de experiências” a falar sobre situações de um lugar que absolutamente desconhecemos, mas que eles como observadores científicos estão autorizados para tal. Estudaram anos para isso e estão, portanto, abalizados para teorizar e comprovar, muito bem por sinal.
O assunto é religião e ciência, não como campos opostos, mas como possíveis aliados e ilustrando a trajetória de seu entrelace através dos séculos.
De uma certa forma ao escolher esse título e começar a caminhar por suas páginas com muita atenção e pouca cautela, sou atacada por uma meio crise de ansiedade que apenas um chocolate suíço já totalmente descascado de todas as vestes numa mordida tranquilizante pode salvar, pronta a me libertar do “e se?”... Cesar, um amigo, diz que tudo me remete a comida, o que acho razoavelmente coerente.
Em certos momentos fica tudo muito claro e angustiante, ciência, religião e filosofia podem me ajudar a ter certezas temporárias, mas o que realmente faço com certezas que não são exatamente tão matemáticas como gostaria? Chocolate suíço...
Há uma comunidade com uma escolaridade parcialmente afim, com um comportamento razoavelmente parecido que diz que sim essas teorias são boas e comprovadas e nos damos as mãos satisfeitos e confiantes, mas até quando? Às vezes a fim de sermos poupados dos pensamentos intrincados que não alcançamos e por conta dessa ignorância nos deixam angustiados, deixamos nas mãos e idéias de outros aquilo que deveríamos perscrutar ou simplesmente não. Nossa mente inquieta está sempre buscando motivos “para”, esquecida de que tudo é uma questão de tempo antes desse mesmo tempo parar completamente e varrer nossas dúvidas e certezas para um outro qualquer lugar onde nada disso terá mais qualquer importância. Mas dito isso, o livro não foi escolhido a esmo, seus autores levam em consideração mais do que simplesmente conhecimento científico intelectualmente adquirido, consideram o conhecimento experiencial, empírico, não conflitante. Sempre fico claustrofóbica com coisas absolutas e inflexíveis, a experiência é sempre uma fonte de prazer e a pesquisa uma brisa no deserto pela simples pesquisa e se os resultados além de tudo forem positivos por mais temporários que sejam cumpriram seu papel como que esvaziando um pensamento que ocupava todo o pulmão cerebral impedindo a entrada e saída de ar.
A angústia não é uma constante em nós, talvez um sujeito latente e temeroso apenas que nos assalta quando perplexos nos deparamos com o tempo e com as certezas de um caixa mal fechado onde as contas “não batem”.
Então leituras assim embasadas em experiência e ciência nos convidam não à fé cega, mas ao risco do entendimento. Não necessariamente oferecem soluções, mas ilustram possíveis manejos com novas ferramentas.
Eu acho que a genialidade de Picasso está principalmente no fato de entendendo profundamente de artes clássicas tê-las não abandonado, mas incorporado a uma possível nova leitura das pinceladas de muitos mestres de várias gerações, tornando a arte um lugar mais flexível e improvável, e, portanto, mais democrático.
Não seremos nunca unânimes enquanto observadores, mas podemos caminhar em direção da paz e consequentemente da felicidade.
O nome do livro é Embracing Mind, de Alan Wallace e Brian Hodel, em inglês apenas, eu recomendo a leitura!

domingo, outubro 24, 2010

Baaria, o filme

(AS RECEITAS ESTÃO NO BLOG http://chefcordonvert.blogspot.com )

Entradas compradas, pipoca em punho, fila discreta para a entrada porque o filme apesar de muito premiado está em exibição há algum tempo e eu distraída simplesmente esqueci que queria ver e procurando cinema pro fim de semana dei com ele ainda lá, bom sinal!
Saímos do cinema desopinados depois das quase 3 horas e ainda sem fome apesar do avançado da hora, mas com o pensamento fixo numa massa al dente e num vinho tinto encorpado.
Mais cedo durante minha caminhada fiz uma visita relâmpago ao Ana, literalmente braço direito do Artigiano no Jardim de Alah, fronteira entre Leblon e Ipanema, ambos colados um ao outro e para minha surpresa filhos do mesmo dono.
O Ana parece ser dos dois o mais sofisticado e eu tinha ficado de voltar para o jantar, mas quem ia se lembrar da ilustre quem? Num sábado à noite com o avançado da hora o máximo que conseguiríamos seria uma fila de espera enorme e quiçá um serviço atrapalhado que não valeria o risco, restaurante novo tem que ser experimentado com tranqüilidade. Com a fome ainda acanhada apesar da hora o melhor pareceu ser rumar pra casa e dedilhar despensa e geladeira em busca de inspiração.
A terrine de chévre feita dias antes e bem acondicionada foi salpicada com raspas de limão siciliano e acrescida de peras portuguesas cortadas em leque e cozidas em calda de açúcar e gengibre, acompanhada de mini agrião para a entrada.
Não tinha o coração de alcachofra que achei ter visto na prateleira, mas dei com uns vidros de champignons fatiados e va bene anche!
Fetuccini italiano número 18, grano duro, cozido na água e sal acompanhado de champignons salteados na manteiga e alho picado, incorporados ao pelatti no azeite, pitada de sal, alho macerado, salpicado por um discretíssimo punhado de orégano e tutti questo regado a azeite fina flor di origine controllata, finalizado por parmigiano reggiano, comme il faut (gente como se diz isso em italiano?...).
Pra arrematar saiu da caixa de carvalho o vinho que trancado a sete chaves esperava paciente a hora de exibir com majestade seu tom profundo e bouquet a altura de seus 14,5% . Chileno vindo em mãos direto da adega Santa Rita, (presente do Chico, meu filho do meio) uma reserva especial digna de suspiros profundos e estalares de língua com notas de cerejas e ameixas secas no final, absolutamente redondo acompanhando a terrine e a massa.
De sobremesa garimpei os últimos cantuccini caseiros que guardo em lata bem fechada, para serem mergulhados no late harvest gelado, aquele das peras, que faz muito bem as vezes de vin santo, próprio para sobremesa.
Na semana que entra, começa no Brasil um congresso sobre massas, mais um dos alimentos que cai em desgraça para depois ser reabilitado e que se tornou o atual protagonista de algumas dietas de famosos.
A propósito, hoje é o dia internacional das massas, então vamos a elas! Salute!

quinta-feira, outubro 21, 2010

A receita de uma foto

A RECEITA ESTÁ NO OUTRO BLOG http://chefcordonvert.blogspot.com
A terrine

Não ia ser de abacate, mas quando olhei na tela a foto inusitada de um cágado no meio de uma das metades querendo brincar de caroço, todas as certezas me abandonaram e não fazia mais o menor sentido preparar o que tinha sido planejado de véspera; de repente fazer virar outra coisa aquela entrada que tinha me dado tanto trabalho fazia o maior sentido, muito mais do que o prato politicamente correto e saboroso que ficou apenas arranhado por um naco de pão frances e depois foi abandonado sobre a mesa já quase posta para o jantar. Talvez mais tarde depois que a paixão pela tartaruga-abacate tivesse esfriado, quem sabe voltasse a olhar a terrine de chévre com o mesmo olhar apaixonado e quem sabe até um pouco mais motivada levantasse um brinde com o cabernet sauvignon da Casa Real guardado a sete chaves?
Minha mãe ficava inevitavelmente horrorizada a cada manifestação espontânea eu dizia, estabanada ela retrucava, que me levava a furar o planejamento de um cardápio inteiro na última hora, mobilizada por um ingrediente qualquer que me acariciasse os olhos ou o paladar e me invadisse com seus cheiros; eu nunca me fiz de rogada na certeza de que aquela paixão que se avizinhava ia mexer com os humores de todos os comensais e não apenas com o meu.
Não sei se ainda fazem, mas faziam e era uma delicatessen que não se encontrava em qualquer lugar; era caríssima e cheguei a provar e gostei muito, acho até que repeti, mas isso é uma história de muitos anos antes de eu me tornar vegetariana.
A carne da tartaruga, mais precisamente a sopa feita com ela e depois da sopa os brincos, colares, pulseiras e todos os outros etc inventados do casco, polidos e vendidos nas boutiques de Maceió que minha tia muito atenciosamente mandava de presente pra gente e que todas usávamos orgulhosas, enchendo a boca da terra que corria no nosso sangue sem sequer imaginar que a sopa e os badulaques eram um depredar desumano.Lá, naquele tempo nem tão distante, nem de longe nos passava qualquer idéia ecológica que fosse de preservar um nada, era uma abundância que Deus benza e nunca se pensava que ia ser o contrário.
E então meio perplexa olho uma e outra vez a foto da tartaruga recheando o abacate como se embalsamada e estranhamente acho que pertencem uma a outra, tartaruga e abacate assim entrelaçados e misturados como se carne e caroço ou para sempre abacate.
Ah sim, a receita. Tá lá todinha no http://chefcordonvert.blogspot.com

domingo, outubro 10, 2010

Almoços de domingo/continua na página http://chefcordonvert.blogspot.com

"... E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera." Gênesis 2:2-3

O ritual semanal era sempre o mesmo, na sexta feira se juntavam na copa para planejar e preparar o almoço de domingo, um ajantarado seria mais próprio dizer já que os filhos e sobrinhos foram crescendo e se independendo a ponto de cada dia mais se parecerem a peixes que não podiam viver longe do mar. Saíam barulhentos e voltavam com metade da praia grudada nos pés que iam sacudindo pelos tapetes e o corredor a caminho dos quartos numa trilha de areia molhada. A família era grande e misturada e o banheiro era um só como em todas as casas, na fila gritavam irritados ou de pura algazarra apressando quem penteava os cabelos depois do xampu com o creme de enxaguar.
A casa cheirava a todas as delícias esperadas durante uma semana inteira e as mulheres quituteiras sorriam vaidosas a cada suspiro que escutavam depois da mordida num bolinho ou empada, receitas passadas de mãe para filha e depois espalhadas num boca a boca de comadres.
Domingo juntava tios, primos e agregados de todas as idades e os afetos guardados por toda uma semana ocupada encontravam espectadores ao redor da mesa farta.
Não lembro bem quando as coisas mudaram, não reparei quando sorrateiras as avós e tias foram deixando a cozinha de lado, mas de repente notei a casa silenciosa por dois domingos seguidos e depois disso já não era tão fácil saber quando a semana começava ou se tinha terminado. De repente sumiram as copas e apareceram as suítes, cada um no seu quarto com telefone privado, apenas se esbarrando na hora de tirar do novo fogão depois de um tilintar rápido seu prato degelado.
A sala de jantar sumiu da planta da casa e foi agregada a uma sala de estar apertada com vista para a varanda onde mal duas pessoas podem parar. A lavanderia se juntou a cozinha e por conta disso é preciso lançar mão de microondas e máquinas variadas, foi decretado o fim do cheiro culinário e da culinária propriamente dita.
Os domingos que começavam na sexta feira não mais, todos muito ocupados com projetos pessoais inadiáveis e sendo assim as memórias afetivas cultivadas nesses pequenos rituais domingueiros vão se apagando e junto com ela a intimidade e o contato, e sem isso, pouca profundidade, pouco afeto, pouco importa...
Mas vamos ao que interessa, almoço domingueiro no http://chefcordonvert.blogspot.com

sexta-feira, outubro 08, 2010

Terra rotunda est ou ouvindo o galo cantar sem saber bem onde...

Como foi que se propagou e anunciou a sete ventos que a terra era plana e não redonda?
O grego Erastótenes (276-194 a.C.) calculou o diâmetro da Terra com uma precisão bastante razoável considerando que o instrumento por ele usado foi bastante rudimentar, passos que mediram a distância entre as cidades de Alexandria e Siene, com o auxílio de estacas, sombra e luz , ou seja: os gregos já sabiam há muito tempo que a terra era redonda, mas com a derrocada dos romanos a cultura grega desapareceu durante séculos, dando lugar ao período conhecido por Idade das Trevas (600 A.C a 1000 D.C), nessa época alguns membros da Igreja publicaram trabalhos que defendiam a idéia de uma Terra plana que ainda faz eco até os dias de hoje. Um deles foi o monge Cosmas Indicopleustes que escreveu no ano de 547 um livro chamado Topografia Cristã no qual expunha uma visão geográfica do mundo baseada em interpretações literais da Bíblia. De acordo com sua descrição a Terra se assemelharia a um grande baú cuja tampa seria o firmamento, ridicularizando a crença pagã de uma terra circular com argumentos do tipo pessoas estariam andando de cabeça para baixo e chuvas caindo de baixo para cima, fosse esse o caso.
Houve bem poucos defensores dessa teoria dentro da igreja, autores praticamente ignorados em suas épocas e que foram encarados com pouca seriedade nos círculos intelectuais, diante disso resta saber quem inventou o mito da Terra plana, ou melhor, quem inventou que o mito era um consenso da época.
O historiador J. B. Russel em seu livro Inventando a Terra Plana (Ed. Unisa- 1991) aponta como responsáveis pela propagação do mito o francês Antoine-Jean Letronne (1787-1848) levado por seu acirrado preconceito religioso e o americano Washington Irving (1783-1859) com um gosto exagerado pela ficção, a atribuírem ao livro de Cosmas Indicopleustes uma importância histórica que nunca teve, além de sugerir que a Igreja da Idade Média era defensora dessa teoria. A interpretação dos fatos feita por Letrone não foi questionada pelos historiadores posteriores e passou a circular como verdade nos meios intelectuais, mas o mito realmente foi reforçado por John Draper (1811-1882), um físico anti-católico acirrado que publicou em 1873 o livro A História do conflito entre a Ciência e a Religião (disponível na Google books) utilizando o mito da Terra Plana como exemplo de estupidez e atraso e necessariamente oposição das religiões ao progresso da ciência. Através de Draper o mito chegou como retrato absoluto de uma sociedade até o início do século XX e só nos anos 20 começou a ser questionado.
Dito isso, continuemos a estória no próximo blog, o http://chefcordonvert.blogspot.com,
falando de comida...

sábado, agosto 14, 2010

Mirei no que vi, acertei no que não vi

Quando escolhemos por querer ou mal querer, optamos pela projeção de alguma coisa com a qual nos identificamos ou repudiamos no outro.
Às vezes são coisas invisíveis aos olhos, mas não às emoções e então, de repente, sabemos o tudo de bom ou de ruim sobre o eleito grande (ini)amigo de infância de 10 minutos atrás e toda uma estória de vida criada nesse espaço de tempo se desenrola e se confunde com a realidade. Porém aquilo que achamos ver ali, não é senão uma personagem criada que inevitavelmente em algum momento vai nos desdizer ou decepcionar, porque na verdade não a estamos olhando com seus olhos, mas com os nossos.
Olhando dessa maneira é possível ver como muitas vezes de forma imperceptível lidamos com amigos e inimigos exatamente da mesma maneira e a felicidade vista dessa forma realmente não tem qualquer chance de sequer acontecer, o que dirá de durar.
Muitas vezes nos consideramos altruístas, mas é preciso esquadrinhar bem a motivação de nossos atos que nem sempre é exatamente generosa. Nada de errado em afagar os nossos, ao contrário, apenas deveríamos nomear bem os bois, para podermos contabilizar corretamente o nosso gado.
Nesse momento temos ao alcance das mãos muito daquilo que acreditávamos pudesse nos trazer felicidade; comunicação ilimitada, bens de consumo, possível longevidade, e, no entanto, talvez nunca tenhamos sido tão ansiosos e angustiados, tão cheios de expectativas e medo, tão desesperados por, e tão distantes da felicidade sonhada.
Os meios de comunicação nos tornaram reféns diários de corrupções, guerras e assassinatos e a cada dia que passa nos escondemos mais atrás das telas de nossos gadgets em infinitas redes sociais, morrendo de medo de lidar com a vida simplezinha que a cada um nos cabe, mas onde paradoxalmente um simples não tem o potencial de se transformar num gatilho de revólver ou comprimido de prozac.
Reféns de expectativas inatingíveis e impregnados de toda sorte de propagandas, estamos prontos a nos deixar convencer que a felicidade está a apenas um palmo de distância, mas nos deparamos inevitavelmente com muitos mais palmos ainda por serem desbravados. Será mesmo necessário?
Solitários, conectados a outros milhões de iguais, na rede podemos assumir vários personagens sem a necessidade de grandes cuidados, mas como se faz quando é preciso sair desse aquário e investir e se aprofundar de verdade?

sexta-feira, junho 18, 2010

tá com muita raiva?

"A raiva é uma oportunidade para descansar na natureza da mente"

Carta de Lama Tsering Everest a um aluno
(7/6/2010)



Quando li sua carta, lembrei de uma história que aconteceu com o Joe (filho de Lama Tsering) e o (Chagdud Tulku) Rinpoche. Joe tinha uns 11 ou 12 anos, talvez. Sei que foi antes de eu entrar em retiro. Joe se aproximou de mim enquanto eu estava com Rinpoche, resolvendo algum assunto corriqueiro. Rinpoche olhou para o Joe e perguntou: "O que acontece quando você sente muita raiva?"

Joe se virou para mim, em pânico, implorando com os olhos: "Será que isso é uma pegadinha?" Eu disse a ele: "Vá em frente. Tudo bem responder com honestidade."

Depois de uma pausa cuidadosa, Joe respondeu: "Quando sinto raiva, eu fico tão grande como o céu e consigo fazer qualquer coisa." Rinpoche ouviu com atenção e, depois de pensar um pouco, disse: "Talvez você realmente seja, meu filho."

A raiva é uma energia. Sua essência é perfeita, assim como a essência de todas as coisas. A diferença está em como conduzimos a situação. Normalmente, a raiva é que nos conduz... Engasgamos, gritamos, fazemos planos. Polarizamos e alternamos entre brigar e sair correndo. Mas o melhor seria se simplesmente deixássemos como está... A raiva é uma oportunidade para descansar na natureza. É isso o que significa quando se diz que "os obstáculos são o caminho".

Lidamos com os venenos da mente de maneira diferente, dependendo do caminho seguido. No Hinaiana, evitamos. No Mahaiana, convertemos. No Vajraiana, reconhecemos e descansamos na essência perfeita das coisas.

Rinpoche explicou, certa vez, que a intensidade da experiência nos ajuda bastante. Simplesmente não conseguimos ignorar. Pelo contrário, quando uma emoção arrebatadora nos pegar, isso quer dizer que estaremos em nosso ambiente de prática. Em outras palavras, este nível de prática não aconteceria em outra circunstância.

A tentação com a raiva é expressá-la ou reprimi-la - sendo que ambas são reativas. Em vez disso, devemos admirar aquele Buda (disfarçado de vizinho, por exemplo) que nos deixou possessos, possibilitando-nos usar o momento para meditar sobre a vacuidade da raiva. Isso não faz com que a raiva vá embora. Por que teria de ir embora? É como se fosse um beijo: gentil, presente, sem julgamento. Livre. Ele passa, assim como a meditação, que dura apenas um determinado tempo. Até que algum outro Buda vai deixar você bravo novamente.

É por isso que se diz que devemos nos prostrar aos pés de nosso inimigo. Sem aquele cara, como é que poderíamos praticar este nível de meditação?

Com carinho,

Lama Tsering




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sábado, junho 05, 2010

trem noturno para Lisboa

depois da página 80 o trem empacou, que pena....

Um encontro de amigas

São trinta mais ou menos, mas quase nunca todas se juntam na vez por mês que acontece o encontro.
Coisas pra dividir e trocar, conhecer e repartir, comer e rir.
Há sempre coisas, é sempre bom.
Na última, porém, um ato inusitado.
Um livro na mão pra presentear, mas dar pra quem?
"Gostei dele imensamente, mas são tantas"
...
Entre abril e maio é o aniversario de quase todas, engraçado.
Quem sabe um sorteio... Que ficou quase acertado, até que a meio caminho andado alguém soprou que em abril também faço aniversário.
Entre um obrigada e gente chegando, o livro foi colocado entre os outros muitos, espalhados pela cômoda e a mesa de trabalho.
Trem noturno para Lisboa chegou quando já lia outro e depois mais outro e se insinuou num espaço entre um quase pesadelo e um filme B, de madrugada.
Mais de 2 milhões de exemplares vendidos no mundo, dizia na capa, e não foi preciso usar muito número pra me dar conta de que se tratava de um best seller.
Na madrugada que tanto se vai fazer em casa? Escrever?
Peguei o livro pra folhear e resolver; são muitas as páginas, chato se tiver que parar no meio.
Na capa um comentário de Isabel Allende, na contra capa do Il Diário (Itália) e do Le Monde (França), nomes de peso, é verdade, embora eu sempre desconfie de filmes muito estrelados...
Ok, vá lá digamos. Óculos em punho e...
As páginas me abduziram até que cheguei na 37 e lá dizia, com todas as letras e palavras e em itálico que Marco Aurélio, o imperador romano,
um dia escreveu o seguinte:“Força-te, força-te à vontade e violenta-te, alma minha; mais tarde, porém, já não terás tempo para te assumires e respeitares. Porque de uma vida apenas, uma única, dispõe o homem. E se para ti esta já quase se esgotou, nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros... Aqueles, porém, que não atendem ao impulso da própria alma são necessariamente infelizes.”
Não lembro em que parte essa coisa de livro de auto ajuda começou a incomodar a todos, a expressão pejorativa deve ter sido cunhada para substituir a best seller... Tudo bem que alguns livros ferem sensibilidades, mas se vendem,há quem goste...
E, penso... Se um livro não operar qualquer mínima mudança depois de lido, talvez seja melhor apenas fazer palavras cruzadas.
Ademain que eu vou em frente

quinta-feira, maio 27, 2010

E não me venham falar de fim do mundo....

Oh Calcutta foi um marco não só na história do teatro como na revolução sexual que o ocidente experimentou nos anos 70.
Movimento hippie, sexo livre, drogas e rock and roll, pílulas anticoncepcionais, aborto, movimentos feministas, queima de sutiãs em praça pública, gritos contra a guerra no Vietnã, a cultura indiana batendo à nossa porta, os Beatles bombando...
Enfim, o ocidente sendo varrido pelo caos que deu início a toda a ''evolução'' que se seguiu.
Oh Calcuta foi uma peça de teatro tão comentada e vista que ficou durante anos em cartaz na Broadway e no Strand na Inglaterra.
Ao que o nome da peça em princípio se refere não é exatamente à cidade de Calcutá, mas ''Oh Calcutá'' foi durante muito tempo uma gíria sinônimo de espanto boquiaberto na Inglaterra...
Um espanto que cabe perfeitamente quando se abre a porta de entrada da Índia.
O nome da peça aparentemente derivou de uma pintura do francês Clovis Trouille em sua ambigüidade; "O quel cul t'as!" ou: ‘’Oh! Que bunda você tem!’.
Os anos 70 foram absolutamente polêmicos em todas as frentes. O Brasil se ufanava de seu melhor time de futebol na copa, enquanto os porões da ditadura militar apresentavam a pior performance política e humanitária de nossa história. Pessoas eram arrancadas de suas vidas, enquanto desavisados cantavam pelas ruas ‘’noventa milhões em ação...’’ ou colavam adesivos de ‘’ame-o ou deixe-o”, nas laterais de seus Gordinis...
O Pasquim batia à nossa porta e era fechado a cada semana que chegava às bancas. Leila Diniz, muito antes de Demi Moore, botou a barriga de fora e abriu a boca cheia de asteriscos!
Na frança estudantes faziam greve e literalmente quebravam as estruturas hierárquicas do país.
O Japão voltava a crescer e os EUA enfrentavam a crise do petróleo enquanto exércitos de jovens combatentes desmistificavam o Tio Sam em passeatas pacifistas pela América.
Em Portugal a revolução dos cravos anunciava uma nova era com a queda de Salazar e na Espanha o regime de Franco dava os suspiros finais. Na África portuguesa, quanto sangue derramado, enquanto Elvis juntava uma audiência de alguns milhares de espectadores em seu concerto "ALOHA FROM HAWAII"
O Xá do Irã foi derrubado e o regime dos aiatolás instaurado. E enquanto no ocidente as mulheres começavam a respirar com pulmões cheios de liberdade, no oriente um véu caiu sobre o rosto das mulheres que retrocederam no tempo.
Uma década divisora de águas, uma catarse mundial.
Modas, costumes, políticas e comportamento deram um salto muito além do que pernas talvez pudessem imaginar.
E não me venham falar de fim do mundo....

quarta-feira, maio 05, 2010

A Última Estação

Em inglês se chama ‘The Last Station’, um filme sobre a vida de Leon Tolstoi, famoso romancista russo que dentre outras obras escreveu Guerra e Paz e Ana Karenina.
Trata-se de uma estória em 1ª e 3ª pessoas.
Fala sobre seu amor por sua esposa Sofia, com quem foi casado por 48 anos e de seu amor por uma causa.
Tolstoi pertencia à nobreza russa, o que não impediu que grande parte de sua obra tenha sido dedicada ao homem do povo.
Da maturidade à velhice propriamente dita, tornou-se um pacifista, cujos textos e idéias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade com a natureza. Fundou-se uma comunidade. Chamaram-se tolstoianos os seus seguidores.
Tolstoi concentrou seu trabalho naquilo que considerou a melhor porção do ser humano, no melhor da humanidade, que pelo menos aparentemente, deseja apenas amor e liberdade.
-Todo homem é um espírito livre desde sempre, que arbitra por continuar ou não dessa maneira.-
Há na vida e na arte momentos em que criador e obra se misturam, e o criador se vê elevado à posição de Criador de criaturas, talvez porque, essas mesmas criaturas o tenham transformado num ícone a seu modo, e então criador e criaturas se movimentam num universo onde palavras devem ser imortalizadas mesmo que em detrimento da própria idéia, e pelo tanto, qual proposta pode manter-se viva sem sacrificar a causa?
O filme é uma obra de arte visual e de interpretação pelos veteranos Helen Mirren e Christopher Plummer, vale à pena ser visto.
Abaixo o endereço pra dar uma olhadela.
http://www.youtube.com/watch?v=8ntCIta4WS0&feature=related

sábado, abril 03, 2010

A intenção por trás do ato

A intenção por trás do ato

Nosso subconsciente é com certeza mais esperto do que podemos supor. Somos facilmente envolvidos e persuadidos pelas aparências que resolvemos adotar e ficamos, pelo menos aparentemente, bastante satisfeitos com seus resultados.
Muitas vezes nossas ações altruístas estão apenas imbuídas da necessidade de afeto e reconhecimento e ficamos nus quando não correspondidos ao que consideramos estar à altura, alvejando com críticas e cobranças improcedentes os supostos causadores de nossas decepções.
Mas a melhor parte é quando acreditamos na imensa capacidade que temos de convencer alguém a mudar de hábitos e costumes, por estar claro que a mudança constitui melhoria irrefutável, não importando qual o seu conteúdo ou tamanho...
Carregamos emoções muitas vezes não verbalizadas e/ou não reconhecidas, que nos fazem agir movidos por questões pessoais apenas, enquanto aparentam manifestar um comportamento altruísta; seria muito mais fácil para todos entender ser esse o caso.
Quem sabe o que impeça esse reconhecimento seja o fato de nós não percebermos com clareza o que nos move no momento em que agimos, ou talvez, lá no fundo, temermos que os outros percebam nosso ato pequeno e nos desprezem.
Agimos pela necessidade de sermos amados e aceitos, desimportantes os subterfúgios usados, e essa falta de genuidade para conosco e com o outro forja um alivio temporário, e, portanto insustentável.
Somos perfeitos da maneira como somos e se pudéssemos perceber essa verdade como tal, encontraríamos nossos verdadeiros pares, sem ter que ouvir críticas por anos a fio de pessoas que nos querem consertar como se fôssemos um brinquedo quebrado.
Os outros não podem se transformar no que queremos para que possamos nos sentir seguros e felizes, pelo simples fato de que enquanto os outros não forem plenamente eles mesmos, nós também não seremos.
Seremos apenas um cobrador temporário que tem uma dívida eterna para ser saldada, fruto de insegurança pessoal e da necessidade de reconhecimento.
Olhamos para um espelho e a imagem refletida não é a nossa, ou pelo menos não nos reconhecemos nela, o que será que estamos buscando?

sábado, fevereiro 13, 2010

fluxo mental

As imagens das enchentes que castigam cidades e bairros são desoladoras.
Olhando todo o lixo levado pela correnteza acumulado nos bueiros que descem por galerias subterrâneas e desemboca em rios que levam essas mesmas águas de volta às casas de cada um de nós, me reportei ao fluxo da mente. Uma enxurrada incontida de pensamentos, emoções descontroladas, imagens, sensações e sentimentos que queremos reter, mas transbordam causando enchentes e desastres que perturbam a ordem, e então é preciso manter distância, afastar tudo isso e encontrar os culpados.
E assim o lixo permanece boiando na superfície, com nossa conivência, impedindo o fluxo natural das águas.
Dificilmente buscamos as causas para nossos comportamentos compulsivos, na verdade quase nunca percebemos nossos hábitos repetitivos, apenas robotizados retornamos às mesmas situações e repetimos os mesmos padrões incessantes, e incrivelmente não nos cansamos da repetição.
É interessante observar como crianças repetem uma brincadeira sem parar e o quanto são capazes de se divertirem com ela por um tempo quase irritante, enquanto nós adultos achamos ‘fofo’ que se divirtam e estimulamos a repetição ‘que gracinha’ que nos dá e à criança, uma sensação de segurança, uma certeza, um certificado para como achamos que as coisas funcionam.
Um age, outro reage e assim fica tudo bem.
Com um pouco mais de atenção, sem fixação, podemos observar o fluxo mental incessante, sem tentar interferir, apenas observando, sem qualquer postura física especial, sem causar interferência, deixando que as coisas em nossa mente surjam e desapareçam, sem imputar valor, vivendo a experiência do momento simplesmente.
É relaxante parar, não fazer, observar. É educativo também.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Penso, logo existo...

‘’Por meio de um complexo raciocínio baseado em premissas e conclusões logicamente necessárias, Descartes concluiu que podia ter certeza de que existia porque pensava’’.(Wikepedia)
Na meditação diferentemente do que se imagina, não existe uma expectativa do não pensar, mas de aprender através de técnicas de relaxamento a observar os pensamentos com algum distanciamento, sem se envolver tão completamente a ponto de perder o fio da meada.
Contemplá-los simplesmente.
Contemplar significa observar e também presentear, premiar, no português.
A contemplação pode nos surpreender com insights profundos de um conhecimento vivencial e experiencial que a teoria ou livros não podem proporcionar.
A meditação não pertence a qualquer religião embora as orientais a tenham adotado como prática desde sempre, talvez porque seus povos dediquem mais concentração àquilo que fazem em seu cotidiano.
Penso, logo existo da forma como penso.
Temos como limite o observador, aquilo que é observado e a forma como é observado e dependendo de nossos limites, e sempre vamos ser limitados, nossa vida e entorno tomam um rumo determinado.
Buscamos alguma coisa o tempo todo sem saber exatamente o quê, então buscamos insaciável e eternamente alguma coisa para preencher o vazio, porque é da nossa natureza querer sempre preencher o que achamos que seja tempo e espaço, e com isso muitas vezes terminamos por fazer coisas que não queremos, ficando enredados num emaranhado de culpas e stress sem fim.
Buscamos o que não conhecemos e por isso aquilo que conquistamos não é duradouro e nem suficiente.
Mais à frente, já aliviados, voltamos a procurar num ciclo ‘cachorro procura rabo que procura cachorro’.
Podemos criar sanidade ou loucura, saúde ou doença, ódio ou amor, tese e antítese, prós e contras, a existência de um, baseada na inexistência do outro.
Mas podemos também simplesmente contemplar, talvez não o tempo todo, mas às vezes, e nesses às vezes encontrar conforto.
Encontrar um lugar de silêncio dentre os barulhos internos e ficarmos por uns momentos apenas como se estivéssemos sentados no cinema, só observando as cenas, sem interpretar nada, olhando a forma, o som, a sensação do jeito como ela passa, fora ‘do mim’, do lado de fora.
Imolamos um criador para nos tornarmos ‘sua imagem e semelhança’, talvez para nos encontrarmos com o criador interior e assim compreender, quem sabe, aquilo que realmente estamos buscando e a melhor forma de encontrar a maneira de ser feliz.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

a postagem do aposentado gerou o seguinte comentário...

De início o pequeno conto abaixo parece desconexo de seu comentário:


" A Cultura do Terror/3 "


Pedro Algorta, advogado, mostrou-me o gordo expediente do assassinato de duas mulheres. O crime duplo tinha sido à faca, no final de 1982, num subúrbio de Montevidéu.
Acusada, Alma Di Agosto, tinha confessado.
Estava presa fazia mais de um ano; e parecia condenada a apodrecer no cárcere o resto da vida.
Seguindo o costume , os policiais tinham violado e torturado a mulher.Depois de um mês de continuas surras, tinham arrancado de Alma várias confissões. As confissões não eram muito parecidas entre si, como se ela tivesse cometido o mesmo assassinato de maneiras diferentes. Em cada confissão havia personagens diferentes, pitorescos fantasmas sem nome ou domicílio, porque a máquina de dar choques converte qualquer um em fecundo romancista; em todos os casos a autora demonstrava ter a agilidade de uma atleta olímpica, os músculos de uma forçuda de parque de diversões e a destreza de uma matadora profissional. Mas o que mais surpreendia era a riqueza de detalhes em cada confissão, a acusada descrevia com precisão milimétrica roupas, gestos, cenários, situações, objetos ...


Alma di Agosto era cega.

Seus vizinhos, que a conheciam e gostavam dela, estavam convencidos de que ela era culpada: Por quê? - perguntou o advogado. _Porque os jornais dizem. _ Mas os jornais mentem _ disse o advogado. _ Mas o rádio também diz _ explicaram os vizinhos _ E a televisão!



Texto de Eduardo Galeano , estraido(sic) do Livro " As Mulheres"

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Aposentado e isento de Imposto de Renda

Recebi via e-mail um power point (Aposentado e isento de Imposto de Renda)que trata de um benefício de aposentadoria que o presidente Lula recebe pelo tempo que ficou preso durante as greves no ABC.
Em conseqüência de sua militância sindical à frente dos metalúrgicos, Lula ficou desempregado durante anos. O presidente é torneiro mecânico formado pelo Senai e nunca mais pôde exercer sua profissão.
Foi perseguido politicamente e viveu clandestino até que o movimento operário criou o Partido dos Trabalhadores.
Mas vamos ao que interessa:
Quando se dá um benefício jurídico, na forma de lei, alguns casos podem ser mais beneficiados do que outros, mas o que o benefício visa realmente atingir é o coletivo, ressarcir queixa(s) considerada(s) procedente(s).
É muito cansativo esse nosso complexo de colonizados...
Reclamamos sem procurar saber como e porque uma lei foi escrita e promulgada.
É também cansativo, num país de miscigenados ter que conviver com preconceito contra um estadista que foi um operário, fala errado e que não tem um dedo...
Escândalos de governo? Que bom que vêm à tona, antes não se sabia nada, vai ver eram todos santos... Muitos do partido governista saíram antes mesmos de serem julgados. E o dos outros partidos arrolados, porque não saem?
Pela primeira vez na história desse país somos tratados não só como um país do presente, mas também do futuro.
Parece que o mundo acredita em nós, mas nós não...
A máxima do quanto pior melhor, é uma posição inconseqüente e autoritária e para prafasear Mafalda do chargista argentino Quino: Se Hay Govierno soy contra!

Será que quem faz um power point como esse tem idéia das torturas, mortes, mal tratos e ameaças que brasileiros e subsequentemente seus amigos e familiares tiveram que suportar nos anos da ditadura?
Será que sabe que a lei de anistia e concessão de benefícios foi criada para tentar ressarcir os que tiveram que abandonar suas vidas, país e famílias, de verem seus direitos civis caçados?
Será que sabe que a União concede esses direitos também àqueles que ficaram mutilados ou tiveram familiares assassinados num estado de exceção?
Acho que não, uma vez que o documento é APÓCRIFO.
Durante 25 anos eu fiz militância política, li muito e trabalhei para ver um país melhor, desisti de militar porque sou utópica e sabia desde sempre que quando se sai de trás dos bastidores para entrar no cenário político, negociações precisam ser feitas o tempo todo e não vão ser bonitas e nem parecer justas, mas é preciso entender que votar não é assinar um cheque em branco.
É preciso cobrar sem jogar saliva fora!
Muito ainda precisa mudar, somos um país que nem bem saiu do feudalismo, se é que saiu, para se jogar no capitalismo selvagem sem queimar etapas necessárias, mas mudanças precisam de participação.
Não somos unânimes, mas podemos ao invés de gritar histericamente, participar, e participar não significa comungar. Não temos que gostar todos das mesmas coisas e nem das mesmas pessoas ou de suas posições políticas, mas é sempre bom discutir baseados em fatos concretos, com civilidade e clareza. Não se trata de um campeonato, de uma competição, mas do futuro de um povo, gente de verdade.
De atos covardes e apócrifos em nome de pobres e desvalidos o mundo anda cheio, seria melhor usar mais precisão e menos emoção antes de se abraçar causas sem verificar sua procedência.
Informação nunca é demais, já manipulação pode francamente ser dispensada.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Hanami

Hanami é um filme de uma delicadeza lírica que aproxima sutilmente dois silêncios aparentemente diferentes: o alemão do japonês, que ao final terminam de alguma forma falando a mesma língua.
É a estória de um amor que não cabe em uma única vida, mas que a própria vida se encarrega de minar mesquinhamente.
Trata da inibição e da repetição que nos leva à mesmice cotidiana e nos impede de perceber a grandeza das coisas que estão tão intimamente ao nosso lado e que achamos vão durar para sempre, e deixamos de explorá-las e de participar daquilo que são,como são, porque simplesmente acreditamos que vão estar lá, para sempre.
Trata do rigor com que ambas as culturas se manifestam na busca da perfeição.
Trata das certezas e da fragilidade diante das quais ficamos indefesos e perplexos.
Trata da impermanência de todas as coisas, das sombras que todos carregamos, mas sem saber como dialogar com ela.
Da elegância e do patético. Do mestre que norteia o aluno através do gestual constrangedor que apenas um grande amor é capaz de experimentar, de se aventurar.
Lírico, poético, singularmente belo, Hanami tem que ser visto quando o tempo está à favor. Quando se pode apreciar tanto o florescer das cerejeiras que marcam o fim do inverno e o início da primavera no Japão quanto o verão que chega nos jardins do Instituto Moreira Sales.
O ingresso custa apenas R$10,00, a inteira, o lugar é poético e inspirador.
A sala de cinema tem o frio necessário pra esquecer o verão grudento do lado de fora e depois aproveitar o fim de tarde sentado na varanda que traz uma brisa fresca cheirando a mato e um barulhinho bom da cascata que corre nos fundos do jardim projetado.
Quer ver um pouquinho do filme? Vai lá no: http://cinema.uol.com.br/ultnot/multi/2009/12/24/0402306AD8A173E6.jhtm?trailer-do-filme-hanami-cerejeiras-em-flor-0402306AD8A173E6

sábado, janeiro 02, 2010

Venus rege 2010. É o amor....

Terminamos o ano aliviados e com muitas esperanças e propostas para o ano que começa. Dois mil e dez tem tudo pra dar certo, como tinha 2009, 2008, enfim...
Expectativas criadas a cada ano... Porque temos sempre esperança e ela é a última...
Conversando com amigos sobre suas esperanças, o que mais ouvi foi sobre saúde e relacionamento. Vontade de ser feliz.
Mas o que realmente me surpreendeu não foi apenas saber de algumas dessas pessoas que elas mantêm relacionamentos começados à partir de personagens que criaram, mas sim que continuram mantendo essas personagens vivas ao longo do relacionamento.
Acho que o custo da brincadeira é alto demais para as partes envolvidas.Leva à baixa auto-estima dos dois, ou reforça a que já existe.
Quando sonhamos, e lá toda sorte de coisa é possível de acontecer, nos emocionamos ou nos aterrorizamos, mas ao acordarmos aquilo tudo fica para trás porque reconhecemos as cenas como sendo parte de um sonho e não a realidade.
Mas e os enganos a que nos submetemos e submetemos a terceiros, fazem parte do que chamamos de realidade ou será sonho?
Todos queremos ser felizes e todos sabemos o quanto é difícil chegar lá, o que dirá manter e preservar essa felicidade.
Me pergunto o que motiva alguém que pretende ser feliz mentir sobre quem é e sobre suas pretensões.
Será que isso pode durar?
Às vezes até dura, como prisão domiciliar, como infelicidade sem fim.
Somos seres gregários, gostamos e precisamos de companhia, porém quando estar acompanhado fala mais alto do que felicidade, sei não...
O ano de 2010 será regido por Venus, a deusa do amor.
O amor estará favorecido, mas também a verdade e a responsabilidade, porque saturno e plutão estão de olho pra quem quiser ser ‘muito esperto’.
O amor, como tudo nesse lugar onde vivemos vive de trocas, justas, honestas.
Não é possível oferecer o que não se tem para obter aquilo que se quer sem gerar ônus, e às vezes os ônus podem chegar a números astronômicos.
Viver em pele de personagens é chamar outros personagens para o nosso convívio e pode ser que um dia, ‘os tolos’ se acordem e o rei fique nu.