"... E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera." Gênesis 2:2-3
O ritual semanal era sempre o mesmo, na sexta feira se juntavam na copa para planejar e preparar o almoço de domingo, um ajantarado seria mais próprio dizer já que os filhos e sobrinhos foram crescendo e se independendo a ponto de cada dia mais se parecerem a peixes que não podiam viver longe do mar. Saíam barulhentos e voltavam com metade da praia grudada nos pés que iam sacudindo pelos tapetes e o corredor a caminho dos quartos numa trilha de areia molhada. A família era grande e misturada e o banheiro era um só como em todas as casas, na fila gritavam irritados ou de pura algazarra apressando quem penteava os cabelos depois do xampu com o creme de enxaguar.
A casa cheirava a todas as delícias esperadas durante uma semana inteira e as mulheres quituteiras sorriam vaidosas a cada suspiro que escutavam depois da mordida num bolinho ou empada, receitas passadas de mãe para filha e depois espalhadas num boca a boca de comadres.
Domingo juntava tios, primos e agregados de todas as idades e os afetos guardados por toda uma semana ocupada encontravam espectadores ao redor da mesa farta.
Não lembro bem quando as coisas mudaram, não reparei quando sorrateiras as avós e tias foram deixando a cozinha de lado, mas de repente notei a casa silenciosa por dois domingos seguidos e depois disso já não era tão fácil saber quando a semana começava ou se tinha terminado. De repente sumiram as copas e apareceram as suítes, cada um no seu quarto com telefone privado, apenas se esbarrando na hora de tirar do novo fogão depois de um tilintar rápido seu prato degelado.
A sala de jantar sumiu da planta da casa e foi agregada a uma sala de estar apertada com vista para a varanda onde mal duas pessoas podem parar. A lavanderia se juntou a cozinha e por conta disso é preciso lançar mão de microondas e máquinas variadas, foi decretado o fim do cheiro culinário e da culinária propriamente dita.
Os domingos que começavam na sexta feira não mais, todos muito ocupados com projetos pessoais inadiáveis e sendo assim as memórias afetivas cultivadas nesses pequenos rituais domingueiros vão se apagando e junto com ela a intimidade e o contato, e sem isso, pouca profundidade, pouco afeto, pouco importa...
Mas vamos ao que interessa, almoço domingueiro no http://chefcordonvert.blogspot.com
Um comentário:
uma delicia a sugestão do almoço de domingo, assim como, ler seu texto cheio de memorias saborosas.bj
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